10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Cheque devolvido causa prejuízos para lojista e consumidor

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Um dos grandes vilões do comércio varejista continua sendo o cheque. Apesar de toda tecnologia existente e da maciça utilização dos cartões de crédito e débito, o cheque continua sendo um dos meios mais comuns de se pagar uma compra. Cientes disso, os comerciantes apostam em parcelamentos, prazos maiores e outras promoções para quem utiliza essa modalidade de pagamento. O problema é que, muitas vezes, oferecer vantagens não é tão interessante assim, nem para o comerciante, nem para o consumidor.

De acordo com o economista Reinaldo Cafeo, a devolução de cheques causa prejuízos para ambos os lados. Segundo ele, muitos empresários do setor ainda não aprenderam a negociar com os clientes inadimplentes. O grande problema para o comerciante, na avaliação do economista, é assumir o risco a partir do momento em que aceita pagamentos com cheques pré-datados. “Ele fica sem a mercadoria e assume esse risco, que se torna muito maior que o de antes - o risco de não vender”, ressalta.

O lojista ainda fica sujeito a criar um círculo vicioso, ou seja, vender, não receber e não conseguir pagar os fornecedores. “É preciso fazer uma avaliação no momento de conceder o crédito. O consumidor inadimplente espalha a inadimplência no comércio. Uma coisa leva à outra”, observa o economista.

Sem controle

Por outro lado, o grande perigo para os consumidores é perder o controle das finanças e não conseguir honrar os compromissos por conta de dívidas que vão crescendo, devido ao consumo desenfreado. “O que existe hoje: massificação, despertar desejo, renovar desejo, mais gente entrando no mercado de consumo. As pessoas se deixam levar por esses apelos e não conseguem administrar de forma adequada o orçamento da família”, frisa.

Para Cafeo, as pessoas precisam voltar a gastar no limite da renda e, quando antecipar algum gasto em relação à renda, ter convicção de que durante aquele período terá a margem necessária como garantia. “Caso contrário, vai acontecer isso mesmo (endividamento). Porque entre comprar o alimento, pagar o aluguel, a conta de luz e o cheque, a pessoa vai preferir acertar as contas a honrar o cheque, porque a maioria dos devolvidos é o pré-datado”, destaca.

Outro ponto a ser levado em consideração, de acordo com o economista, é o fato dos comerciantes serem muito radicais na hora de renegociar. Segundo ele, ainda são poucos os que chamam os consumidores inadimplentes para conversar para, ao menos, receber parte da dívida e amenizar a situação de ambos. “Primeiro precisa ter o critério de concessão do crédito. Concedeu, deu problema, tem que ter a política de recuperação, ter jogo de cintura. Com exceção dos maus pagadores, aquele que é contumaz, os outros têm consciência de que o único patrimônio que têm é o nome. Por isso, precisa de jogo de cintura de ambas as partes”, adverte.

Crescimento

O número de cheques devolvidos por falta de fundos cresceu de 2% do total emitido em 1997 para 7% do total no ano passado, ou seja, segue tendência de crescimento nos últimos dez anos. Prova disso é o resultado de um levantamento feito pela Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio).

Os dados da entidade apontam que, entre março de 2007 e fevereiro de 2008, foram transacionados cerca de 1,5 bilhão de cheques. Desse total, aproximadamente 104 milhões foram devolvidos, o que corresponde a uma perda estimada no varejo de R$ 83,4 bilhões.

Do montante referente às devoluções, cerca de 10% do valor refere-se a cheques devolvidos em razão de furto, clonagem, adulteração, entre outras irregularidades - correspondendo a cerca de R$ 8,34 bilhões. O restante corresponde a cheques sem fundos ou bloqueados, que totalizam R$ 75,06 bilhões.

____________________

Bauru

Em Bauru, a movimentação de cheques é considerada normal no comércio e a devolução não atinge números expressivos. A informação é do presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Sérgio Evandro do Amaral Motta. “Nós não temos registrado os valores totais nem quantidade de cheques devolvidos, apenas daqueles (lojistas) que são associados à CDL, que manda os registros para o SPC (Serviço de Proteção ao Crédito). E não são tantos assim”, observa.

De qualquer forma, as empresas associadas à CDL têm tomado todos os cuidados necessários para evitar o recebimento de cheques sem fundos ou com algum problema de adulteração. O problema maior, segundo Motta, são aqueles comerciantes que não consultam o cheque antes de receber.

“A gente orienta sempre a consultar, principalmente os de maior valor. E atualmente, a consulta não causa constrangimento ao cliente, pois é feita direto no computador e já mostra se é roubado, extraviado, ou se tem alguma restrição”, salienta.