09 de julho de 2026
Geral

Emoções positivas podem ativar genes

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 4 min

Uma pesquisa na área de hipertensão arterial levou o médico japonês Kazuo Murakami a tentar desvendar um dos mistérios que ainda assolam a comunidade científica internacional: qual a verdadeira função dos 98% dos genes humanos que ainda não foram decifrados? Professor doutor emérito da Universidade de Tsukuba, uma das principais universidades do Japão, Murakami foi o responsável pela decodificação do gene humano renina, fator chave na hipertensão. Atualmente, é considerado potencial candidato ao Prêmio Nobel em sua área pela pesquisa na elucidação do DNA.

O Jornal da Cidade entrevistou o médico com ajuda do intérprete Sérgio Tadashi Ota. Murakami esteve em Bauru no último sábado para ministrar a palestra “Viver com o Gene Ligado”, quando falou sobre os estudos e descobertas que embasaram seu livro “Código Divino da Vida”. Foi a partir dessas pesquisas sobre as causas da hipertensão que o médico percebeu que era necessário estudar o gene que causaria a hipertensão. “100% do código genético desse gene foi decifrado e nos causou grande emoção”, afirmou Murakami, explicando que através da decodificação foi possível descobrir toda a estrutura e como era composto todo o gene que causava a hipertensão.

Murakami afirmou que, após os cientistas decodificarem o genoma humano, foi descoberto que apenas 2% dos genes tinham função definida e os demais ficavam “adormecidos”. São justamente esses genes adormecidos os objetos da pesquisa do médico. “Dentre esses 98% que não se sabe a função podem existir genes que podem causar ou resultar numa melhor saúde do ser humano, ou genes que causem as doenças. É isso que nós queremos descobrir: qual a função desses genes?”, explicou.

Dentro desses genes existem aqueles que podem ser ativados e desativados de acordo com o ambiente em que somos criados ou que vivemos. Não quer dizer que há mudanças ou transformações, mas eles podem determinar como a pessoa vai viver. “O ambiente que a pessoa vive, o local, as pessoas que convivem à sua volta, influenciam na ativação e desativação desses genes”, disse.

Segundo Murakami, o que se sabe até agora é que as pessoas nascem com os códigos genéticos dos pais, mas não serão esses códigos que vão determinar quem a pessoa vai ser, mas sim o ambiente, que vai influenciar de forma positiva ou negativa, determinando a ativação ou não dos genes benéficos.

É neste ponto que se chega ao paralelo entre a ciência e a espiritualidade. Uma das teorias, segundo Murakami, é que o esforço físico ativa os genes dos músculos. A alimentação também ajuda nessa ativação, dependendo do que a pessoa come. A partir daí, o médico começou a pensar que, se alguns genes podem ser ativados na parte física, espiritualmente também não seria possível? “Penso que o ser humano tem seu lado mental, espiritual, que causa grande influência na corpo físico. Através das pesquisas, descobri que o sentimento também influencia nos genes, ativando ou desativando”, citou.

Paralelamente a esses estudos, Kazuo Murakami destaca que, na prática, já foi provado que o riso, a alegria, a felicidade, ajudam na cura das doenças e é exatamente isso que ele quer provar cientificamente. Não existe ainda um conteúdo científico que identifique a reação do organismo no combate às doenças, e é isso que a equipe de Murakami pretende provar, com base científica.

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Ciência e religião

Não há discussão que dure mais do que a da ciência com a religião. Há séculos se trava uma disputa sobre o que é verdade ou não, no que as igrejas acreditam e os esforços da ciência em comprovar cientificamente o que pregam as religiões. Nesse aspecto, Kazuo Murakami está um passo à frente de seus colegas cientistas como mediador entre “o mundo da ciência da vida” e o “mundo da ciência do espírito”.

Maior prova disso é o número de vezes que o médico debateu com o líder espiritual budista, o Dalai Lama. Murakami e o Lama já tiveram quatro encontros, sendo que o período mais longo foi durante uma semana, em que ele e mais um grupo de cientistas foram à residência do Dalai Lama para debater sobre ciência e o budismo. “O Dalai Lama é o líder espiritual que tem condições de discutir diretamente com os cientistas, porque o budismo é a ciência do espírito”, frisou.

Apesar dessa integração entre a ciência e o budismo, Murakami não acredita que outras religiões caminhem nessa direção em que se encontra o budismo. No entanto, ciência e religião podem unir esforços em busca de um bem comum.

“Seguir no mesmo caminho é muito difícil, mas por exemplo, em direção à paz mundial é possível. Cada um em seu caminho, a religião cuidando da parte espiritual, e a ciência cuidando da parte científica, há necessidade de colaboração mútua para se chegar ao objetivo de buscar a paz, buscar a salvação das pessoas. Os caminhos são diferentes, mas através desses dois caminhos deve se chegar a um resultado para a melhora da humanidade.”