08 de julho de 2026
Regional

HAC atinge mil transplantes de medula

Por Rita de Cássia Cornélio | Da Redação
| Tempo de leitura: 6 min

Jaú - Ao receber uma nova medula óssea hoje, o adolescente Paulo Henrique Nunes, 15 anos, entrará para um seleto clube de transplantados pela unidade de Transplante de Medula Óssea (TMO) do Hospital Amaral Carvalho (HAC) em Jaú (47 quilômetros de Bauru). Paulo é o milésimo paciente de uma história que começou em 2004 numa intervenção médica que salvou a vida da menina Vanessa Barro Canal, uma jauense que sofria de leucemia linfóide aguda. A menina, que hoje tem 12 anos, foi a primeira a se beneficiar com um cordão umbilical do banco público do Rio de Janeiro.

Para a mãe de Vanessa, a gerente financeira Mary Barro Canal, o que aconteceu foi um milagre. “Apareceu um cordão umbilical no banco público do Rio que tinha acabado de inaugurar. Dos 280 cordões disponíveis havia a possibilidade de um ser compatível com a necessidade. O cordão estava lá esperando para salvar a vida da minha filha”, conta.

Mary acredita que foi Deus quem enviou a equipe médica para tratar da menina. “Os médicos procuraram na família, mas não havia compatibilidade. Começaram a procurar nos bancos públicos e encontraram. Eles foram muito dedicados. Fizeram o transplante de célula tronco de cordão umbilical.”

Recordando a história de vida da menina, a mãe lembra que Vanessa sofreu e tratou de leucemia linfóide aguda de 1998 a 2004. “ Ela fazia quimioterapia e a doença parecia estar resolvida, mas retornava. Em 2004, a doença retornou pela terceira vez e os médicos orientaram para o transplante.”

A indicação médica era para que alguém da família fizesse a doação. “Eles pediram para arranjar um doador já que na família não tinha ninguém compatível. Nós partimos para a busca e, junto com eles, encontramos.”

Vanessa tinha quase 9 anos quando foi internada, lembra a mãe. “Ela comemorou o aniversário de nove anos no hospital. O transplante era o fim de uma verdadeira via crucis entre quimioterapia e radioterapia idas e vindas ao hospital.”

Sobreviver para viver

Durante seis anos, a vida de Vanessa se limitou a tratar da saúde. Depois do transplante, a vida da menina e de sua família se transformou, comenta a mãe. “Hoje, ela tem 12 anos. Leva uma vida normal. Depois da cirurgia, durante seis ou sete meses, ela ainda tomou muita medicação para evitar rejeição. Eu não imaginava que uma criança fosse tão forte.”

Três anos depois, a menina ainda tem acompanhamento médico. “Ela faz acompanhamento de crescimento. A vida dela é como a de toda pré-adolescente, pratica até esporte.”

Mil

Vanessa e o transplantado número mil do HAC, Paulo Henrique Nunes, têm algumas coisas em comum. De acordo com Terezinha Maria de Oliveira Nunes, mãe de Paulo, os sintomas da doença surgiram no final de 2004, exatamente no ano em que Vanessa realizou o transplante. Paulo reside na zona rural do município de São Joaquim, em Santa Catarina, e passará por um segundo transplante. Terezinha explica que a suspeita de ser leucemia foi levantada pelo médico pediatra de São Joaquim. “No começo, ele tinha muita tontura, fraqueza, não queria brincar mais e quando eu o levei no médico só de ver ele falou que poderia ser leucemia”, conta a mãe.

De São Joaquim, Paulo foi encaminhado para a cidade de Lages para exames que confirmaram, em janeiro de 2005, o diagnóstico de leucemia mielóide crônica. O paciente foi transferido para Florianópolis para o início do tratamento e realização dos exames de compatibilidade com os membros da família. Das quatro pessoas da família, somente o irmão mais velho, Luís Paulo Nunes, era compatível.

Para realização do transplante, Paulo e familiares foram aconselhados a buscar tratamento no HAC em Jaú. “Os médicos de Florianópolis falaram que a leucemia dele só poderia ser tratada aqui em Jaú”, afirma Terezinha.

Acompanhado por sua mãe e pelo irmão doador, Paulo veio para Jaú em agosto de 2005, quando passou pela avaliação e realizou os exames necessários para o transplante. O procedimento aconteceu um mês depois, no dia 1 de setembro.

Durante esse período, a família ficou instalada na Casa de Apoio. A mãe de Paulo conta que o atendimento humanizado do hospital ajudou na adaptação. “Os médicos aqui sentam com a gente e explicam o que está acontecendo, eles te orientam, dão conselho. Existe um acompanhamento da família, um apoio. Eu saí do meu mundo para algo diferente, mas nesse novo mundo encontrei muitas coisas boas. Eu tive um atendimento, um carinho que não tinha na minha própria cidade”, conta.

Mãe e filho permaneceram na cidade de Jaú por quatro meses após o transplante para o tratamento quimioterápico. Depois de receber alta, o paciente voltou para São Joaquim, mas, a cada dois meses, retornava ao HAC para acompanhamento e realização de exames.

Em janeiro de 2007, exames moleculares apontaram a recaída da doença, o que foi confirmado um mês depois. Em abril, foi iniciado um tratamento a partir das células (linfócitos) do doador na tentativa de combater a doença. Como o procedimento não surtiu o efeito desejado, foi indicado um segundo transplante. No dia 11 de maio, Paulo desembarcou em Jaú acompanhado da mãe e do irmão Luís Paulo, que será novamente o doador.

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Referência nacional

A Unidade de Transplante de Medula Óssea (TMO) do Hospital Amaral Carvalho (HAC) começou em agosto de 1996, com apenas quatro leitos adaptados.

De lá para cá, transformou-se num serviço de referência nacional, com índices de sobrevida comparáveis às marcas das melhores instituições nacionais e internacionais. Uma ilha de excelência totalmente dedicada ao Sistema Único de Saúde (SUS).

O grau de sobrevida dos pós-transplantados do HAC são estimulantes. Os relatórios de agosto de 1996 até outubro de 2007 indicam sobrevida de 79% dos pacientes adultos com anemia aplástica após sete anos de transplante. Em menores de 18 anos, a sobrevida chega a 80% após quatro anos.

Em pacientes de até 30 anos com leucemia mielóide crônica, os relatórios mostram sobrevida de 80% após 12 anos do transplante e de 85% de sobrevida após quatro anos em pacientes com mais de 38 anos.

No primeiro ano de funcionamento, o HAC realizou sete transplantes. Em 2007, foram 165 procedimentos, 12,17% dos transplantes de medula realizados no País.

Em 2007, dos 165 procedimentos realizados no HAC, 109 foram a partir de material doado por terceiros, ou seja, 66% do total. No Brasil, a proporção é inversa: dos 1.365 transplantes realizados no ano passado, 842 (62%) foram feitos a partir da própria medula do paciente. Os números mostram que o HAC realizou, no ano passado, 21% de todos os transplantes de medula óssea alogênicos feitos no Brasil.

Os transplantes alogênicos são os mais complicados e englobam doadores aparentados e não aparentados. “Não que o transplante autólogo não seja complicado, mas o grau de complexidade e dificuldade do alogênico é bem maior”, explica o médico Virgilio Colturato, coordenador do serviço.

Para ele, o transplante alogênico requer alto grau de experiência das equipes médicas e de enfermagem porque as reações ao tratamento são muito delicadas e demandam cuidados maiores.

O Hemonúcleo Regional de Jaú, administrado pela Fundação Amaral Carvalho, é um importante parceiro do programa de TMO. O hemonúcleo integra o Banco Nacional de Medula Óssea, cadastrando doadores interessados e coletando amostras de sangue para os testes de compatibilidade.