09 de julho de 2026
Articulistas

Ressurreição é possível!


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Todas as manhãs de sábado assisto ao programa “Decouverte” (Descoberta), da Societé Radio-Canada, canal de televisão do estado do Quebec, província do Canadá. O programa é de divulgação científica e é apresentado por Charles Tisseyre, no canal internacional TV5, de língua francesa. Em uma de suas reportagens, Charles Tisseyre apresenta um especialista em hibernação, Keneth B. Storey, bioquímico. Este apresenta um sapo que vive nas florestas do Quebec, que morre no inverno, se congela totalmente, e no verão ressuscita e volta viver.

O especialista em hibernação explica que os ursos engordam, guardam reservas no corpo no verão e, no inverno, hibernam. Dormem todo o período de frio, diminuindo o metabolismo para consumir menos energia e viver dessas reservas. As cobras se escondem e ficam totalmente imóveis. Seus corações se lentificam e a freqüência cardíaca chega a diminuir até 2 batimentos por minuto. Tartarugas aquáticas param de respirar pelos pulmões e respiram pela pele. Ficam imóveis no fundo de águas geladas dos rios. Cada espécie desenvolveu um mecanismo próprio de adaptação. Essas três espécies hibernam, lentificando seu metabolismo e dormindo. E, na primavera, despertam. Mas, uma grande surpresa, o sapo da floresta a que me referi é congelado totalmente, seu coração pará, suas células morrem e, na primavera, se descongela e ressuscita.

Sabe-se que tecidos vivos congelados são danificados e partidos pelos cristais de gelo. Então, eu pergunto como ele faz isso? Keneth B. Storey explica que as células desse sapo produzem um gel que é liberado dentro das células dos órgãos e no sangue do sapo. Este gel impede que os líquidos internos e externos das células, quando congelados, não partam os tecidos e órgãos intactos congelados de -5 a -20 graus centígrados no inverno canadense. Na primavera, quando o corpo se descongela, o coração completamente descongelado cria uma carga de energia elétrica em volta dele, que parte a condução elétrica através de suas câmaras, que voltam funcionar de novo. Um milagre acontece no começo da primavera nas florestas do Quebec, mas muitos sapos falham nesse processo de reativar seus corações e não ressuscitam, morrendo no último inverno.

Qual o interesse dessa pesquisa? Storey pesquisa a hibernação com objetivo de criar técnicas de conservação de órgãos para transplantes em humanos. Ora, esse gel poderia ser usado para conservação de órgãos humanos por muito mais tempo do que é possível hoje. Poderia se estocar muito mais órgãos e diminuir a fila de pacientes a espera de um para transplante. Há, também, o problema do transporte de longas distâncias de um hospital para outro, que exige técnicas de conservação para não danificá-los para chegar intacto ao paciente que precisa recebê-lo. Abriria a possibilidade de troca de órgãos entre países.

Esse fenômeno tão fantástico lança um desafio a todos que já fizeram uma reflexão sobre a vida e a morte, filosófica, científica ou religiosa. A natureza faz seus próprios milagres e nós, médicos e pacientes, esperamos que o espírito científico e a razão humana avance o conhecimento para salvar vidas, melhorar a qualidade de vida das pessoas e entender a natureza própria da vida.

O autor, dr. Carlos Manuel Cristóvão, é médico psiquiatra