Caçadas e pescarias se confundem com minha história de vida, seria impossível falar do meu passado sem alinhavos e chuleios de boas pescarias e caçadas, mas nem tudo são flores na vida de um pescador. A gente acaba vivendo verdadeiros vexames. Nesses dias frio de inverno sempre me lembro de um fiasco que passei quando tentei matar uma enorme sucuri a foiçadas.
Eu tinha um amigo que se chamava José Américo mas, entre nós, pescadores, e outras rodas de caipira, foi reduzido para Juca Amérco. Certa noite fomos pescar em um rio cujo leito se perdia dentro de um banhado cheio de taboa e outras vegetações que mais parecia uma área de mangue, o que nos obrigou a abrir uma picada brejo afora até chegarmos ao curso d’água para a pescaria propriamente dito.
Com muito esforço chegamos ao barranco e armamos nossa patacoada, e ali ficamos por horas a fio com a foice que serviu para embrenhar o pântano ali do nosso lado para alguma emergência. Já cansado da charla dos companheiros, o amigo “Juca Amerco’ resolveu se afastar um pouco da nossa ‘base’, e mal começou a andar já parou assustado com o farolete, clareando alguma coisa sob uma moita de chapéu de couro.
Juca permanece com o foco de luz sobre a cabeça daquilo que seria uma enorme cobra, e me olhando repetia com voz baixa e muito rápida. - É uma sucuri, é uma sucuri. Naquele tempo, a caça era coisa corriqueira e consciência ecológica tinha um um lema que dizia o seguinte: passarinho deixa voar, bicho mata pra comer e cobra pra se defender.
Ao ouvir o insistente apelo de que era uma sucuri, passei a mão na foice e corri em direção ao amigo, encontrei-o com o braço esticado e o dedo indicador dentro da moita, e me disse que o corpo da cobra estava submerso no lodo, mas a julgar pela cabeça se tratava de uma coisa realmente monstruosa.
Como eu também havia exagerado do agasalho engarrafado, concordei que se tratava de uma enorme e perigosa cobra e devia ser exterminada para nossa segurança, e de foice em punho levantei a arma mirei uns dois dedos atrás da cabeça e disse pro companheiro: - Vou decepá-la em um único e certeiro golpe.
A foice gelada assoviou no espaço e enterrou no brejo até o cabo. Com o foco de luz clareando a moita, ouviu-se um característico quaque, quaque e algo saiu pulando entre nossas pernas já quase trêmulas.
Só então o amigo Juca Amérco disse aliviado ah! É uma perereca. Misturando susto e decepção levantamos nossa traia e regressamos pra casa. Essa historia foi um tremendo equívoco, porém verdadeira.
Lázaro Carneiro é pescador e contador de histórias.