A agricultura é o setor da economia em que mais promessas dos avanços genéticos já se transformaram em realidade. Ainda que a grande maioria das pessoas nem se dê conta, o consumo de alimentos transgênicos tem sido crescente nos últimos anos.
Os organismos geneticamente modificados (OGMs) estão por toda parte e preenchem gôndolas de supermercado, que vão do setor de alimentos industrializados aos hortifrutigranjeiros. Iniciada 20 anos antes dos estudos com seres humanos, a manipulação dos genes de plantas permite que sementes, frutas e legumes possam ser enriquecidos com vitaminas e tenham prolongado o seu prazo de validade.
“O morango, hoje, dura dez dias porque nele é introduzido um gene que ataca bactérias, impedindo que ele apodreça em menos de um dia, como ocorria antes. O tomate pode durar até um mês, também porque tem genes resistentes”, afirma Jehud Bortolozzi, professor titular de genética do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. “Praticamente todos os legumes e sementes que consumimos são transgênicos, mas as pessoas nem sabem, porque não existe um selo que identifique essa manipulação”, complementa.
Pela falta de identificação nas embalagens e pelo desconhecimento quanto aos riscos que a produção desses alimentos pode causar ao meio ambiente e à saúde, os OGMs ainda enfrentam uma grande resistência de grupos ambientalistas.
Para Bortolozzi, os transgênicos podem ser tão danosos quanto um alimento produzido através de cruzamentos naturais. “Não existe diferença entre os riscos, mas sim na rapidez com que eles podem ocorrer”, pondera.
Critério
Bortolozzi explica que todas as experiências são aprovadas pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), do governo federal. “Todos os riscos são criteriosamente avaliados. Desde quando surgiu o primeiro transgênico até hoje, nenhum trabalho mostrou que o transgênico é ruim”, frisa.
Para além das discussões ambientais, os agricultores comemoram, já que os transgênicos representam uma brutal redução no consumo de água, energia, fertilizantes e, portanto, dinheiro. Para se ter uma idéia, a área dedicada ao plantio de transgênicos no Brasil cresceu 30% entre 2006 e 2007.
“É um caminho sem volta”, vaticina Bortolozzi. “À medida em que são desenvolvidas técnicas para melhorar a qualidade e quantidade do que é plantado, o agricultor não vai aceitar regredir. No meu modo de ver, em um curto espaço de tempo, o termo transgênico vai deixar de existir, simplesmente, porque tudo será transgênico”, imagina.
Atualmente, uma segunda geração de OMGs é pesquisada tanto nos laboratórios das grandes produtores quanto em instituições públicas, como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). “Em vez de inserir genes de outros organismos no genoma, os próprios genes da planta são inibidos ou estimulados para alcançar um determinado efeito”, detalha o professor.
Nos últimos três anos, a Embrapa tem se dedicado a pesquisar um tipo de feijão geneticamente modificado para resistir à seca, em que foi inutilizado um dos genes do DNA da planta. A intenção é que o feijoeiro possa ser cultivado por pequenos produtores do semi-árido nordestino.
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Esperança de cura é depositada nas células-tronco
Conforme o geneticista Esiquiel de Miranda, a utilização de células-tronco embrionárias é a grande promessa dentro do que se entende por biotecnologia, ou seja, o conjunto de técnicas que se utilizam de material biológico para um determinado fim. Desde que o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou as pesquisas com essas células no País, há cerca de um mês, foi renovada a esperança de cura para algumas das doenças mais mortais, além de melhora na qualidade de vida de pessoas que apresentam paraplegia.
Isso porque as células-tronco podem se converter em praticamente todos os tecidos do corpo humano. Entretanto, o método de sua obtenção é polêmico, em razão da maioria das técnicas implementadas nessa área exigir a destruição do embrião, o que gerou contestações de alguns setores da sociedade.
Para encerar a celeuma, o STF definiu, no texto da Lei de Biossegurança, que o início da vida se dá a partir do momento em que há atividade cerebral do ser embrionário. “Esse raciocínio é análogo ao que se entende por morte, que é dada quando se encerra a atividade cerebral. E ficou provado que, até 14 dias, o embrião não possui um sistema nervoso estabelecido”, comenta o advogado Olavo Pelegrina Júnior, coordenador da Comissão de Direito da Família, Sucessão, Infância e Juventude da Subseção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Com a recente garantia de que os estudos terão prosseguimento, em cinco anos as experiências já devem estar avançadas nessa área, com expectativa de bons resultados em terapias de combate a alguns distúrbios genéticos, segundo Miranda.
“Já existem várias técnicas de terapia celular sendo estudadas na tentativa de reduzir a velocidade com que doenças algumas neurodegenerativas progridem. Já no caso de pessoas tetraplégicas ou paraplégicas, o maior objetivo é fazer com que elas tenham condições de voltar a andar”, comenta o geneticista.