08 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: ‘As Alegres Comadres’

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Um nobre falido chega a cidade de Tiradentes com a pretensão de aplicar golpes na burguesia local se utilizando de seu status como membro da corte. Seus planos acabam em uma verdadeira armadilha para si mesmo quando resolve se envolver com duas mulheres casadas e também muito amigas. Com uma maneira feminina e muito bem humorada, as duas mulheres acabam ridicularizando o nobre que sofre as conseqüências de suas falsidades. Baseado na obra de Shakespeare, o filme “As Alegres Comadres”, de Leila Hipólito, brinca com atitudes como a falsidade, a amizade, a hipocrisia, o amor e o prazer revelando que a vida seria muito mais simples com a liberdade e a transparência.

Basicamente, ser ético é ser um indivíduo coerente com suas idéias. Um ser humano é ético a partir do momento que sua ação se aproxima de sua visão de mundo, daquilo que ele acredita ser o certo, o correto, o bem. Para ser verdadeiramente ético, é necessário, porém, possuir claramente uma opinião sobre a vida, sobre as situações que presencio e as ações que realizo. Caso contrário, corremos o risco de sermos éticos por acaso ou vivermos em grandes contradições com aquilo que pensamos e fazemos. Se possuímos idéias claras sobre o nosso universo podemos nos esforçar em agir eticamente.

Porém, mesmo assim, devemos ter a consciência de que a coerência ética possui suas limitações. No esforço de sempre agirmos como acreditamos, encontramos obstáculos psicológicos e sociais. Infelizmente, o indivíduo ético jamais coincide perfeitamente com o papel social que deseja assumir. A soberania sobre si deve ser exercitada diariamente e é a única efetivamente que se pode e que se deve preservar. Ela até define a única realidade tangível do poder.

Mesmo assim, esta soberania sobre si mesmo, muitas vezes, se encontra ameaçada pelos diversos “daimons” que podem nos tirar do auto-controle. Na Antigüidade, um “daimon” era compreendido como uma força interior que domina o ser humano. Como os antigos não compreendiam muitos mecanismos de nossa psique, como também várias doenças, tudo que se manifestava no ser humano sem explicação era denominado como “daimon”: depressão, epilepsia, surto de raiva ou mesmo o descontrole causado pela alegria. Daí surgiu a tradição na crença em demônios (daimon).

Todo fenômeno que retirava a soberania do indivíduo sobre si mesmo era compreendido como uma possessão de um demônio. O “daimon” é um sujeito no sujeito, que surge em nós como um outro. É uma pena que muitos no século 21 ainda pensem como homens da Antiguidade. Em vez de compreenderem os fenômenos psíquicos que nos levam ao descontrole mental e a perda do domínio de nossas ações acreditam em demônios que podem nos possuir. Tomar consciência dos vários fatores internos (trauma, medo, nervosismo, depressão...) que nos impedem muitas vezes de sermos éticos é o passo inicial para vencê-los e resgatarmos a soberania sobre nós mesmos.

Mas não existem somente barreiras internas que nos levam a uma postura anti-ética. Segundo Michel Foucault, para agirmos livremente e sermos éticos, devemos desenvolver três formas de luta: luta contra as dominações (política); luta contra as explorações (econômica); e luta contra as sujeições (social). Em outras palavras existem três formas de poder que nos limitam em nossa liberdade e nos corrompem.

A dominação exercida pelo poder estabelecido através das relações políticas, quando o Estado se encontra recheado de pessoas que não possuem o bem comum como objetivo único, mas sim seus interesses particulares, somos levados a construir uma relação de desconfiança e, muitas vezes, agir contra o Estado que deveria nos beneficiar. A segunda forma de poder é a exploração econômica. Muitas vezes, nos sentimos desestimulados e sem sentido de vida, porque a nossa única forma de subsistência não nos realiza como pessoa e, pior, vivemos em um sistema que nos suga energia e dinheiro.

Por fim, a terceira forma de poder é a sujeição frente às pessoas que nos circundam e nosso grupo social que muitas vezes não respeitam nossas opções ou estilos de vida. Esta última forma de poder se exerce sobre a vida cotidiana imediata classificando os indivíduos em categorias, designando-os por sua individualidade própria. Todas estas formas de poder (política, econômica e a social) nos levam a encontrar estratégias de sobrevivência que são paliativos e que nos fazem agir sem ética, ou seja, sem liberdade e transparência.

Frente ao problema que ao mesmo tempo é político, econômico e social, não possuímos somente o desafio da libertação do indivíduo frente à corrupção que contamina o Estado e suas instituições ou a realização pessoal em um sistema econômico capitalista, mas encontramos um desafio talvez mais exigente: o esforço de nos liberar, a nós mesmos, de nossa própria mentalidade. A verdadeira resistência está na invenção de uma nova ética, um novo modo de vida, que nos leve a uma ação diária de respeito mútuo e construção de uma outra sociedade.

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