O mês de junho é época de festas populares no Brasil, as consagradas juninas: Santo Antonio, São João e São Pedro. Momentos repletos de misticismo, superstições e crendices populares. Docemente, relembro a minha “infância querida que os anos já não trazem mais”. Ah, lembro de minha avó Olga. Quanto tempo e quanta saudade! Preparava, com carinho, doces de coco, pé de moleque, paçoca e outros quitutes saborosos.
Infelizmente a magia desses tempos dissipa-se como uma névoa de angústia, incertezas e temores. Dia após dia a dor se avoluma. Vivemos tempos insanos e paradoxais. O trágico e violento cotidiano nos agride repetidas vezes. Engolimos um quentão de injustiças, dores e sofrimentos.
O gostoso vinho quente que aquece as noites frias de junho azeda diante desses episódios pitorescos: o ex-governador Anthony Garotinho e outras 14 pessoas foram denunciados pela Polícia Federal e Ministério Público pelos crimes de formação de quadrilha armada, facilitação de contrabando, corrupção e lavagem de dinheiro; aliados do governo federal buscam apoio para recriar a CPMF (Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira), mascarada com outro nome: a CSS (Contribuição Social para a Saúde); o presidente da Câmara Federal Arlindo Chinaglia (PT-SP), diz que o caso Paulinho desgasta a imagem da Casa; relatório final da CPI dos Cartões Corporativos não discorreu sobre dossiê com gastos da gestão Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e nem pede indiciamentos de autoridades e ministros envolvidos no seu uso irregular.
Diante dessas ondas de denúncias que pipocam cotidianamente somadas à falta de uma punição exemplar, procede à primeira vista, pensamentos arraigados na cultura política de nosso país, tais como: “não quero saber de política”; “política é coisa suja”; “os partidos, políticos brasileiros são todos iguais”. Vale lembrar que em meu último artigo publicado nesse “espaço de opinião, formação e debate de idéias”, intitulado “Entre a Imortalidade e o Entorpecimento”, provoquei a “opinião pública” (se é que ela existe no Brasil) com a seguinte indagação: “Como politizar analfabetos políticos?”. É relevante destacar que os diferentes grupos sociais pensam e praticam a política de diferentes formas. Poderíamos distinguir em três grupos: a cultura política das elites econômicas, a da classe média e a das classes empobrecidas. Segundo o texto-base da Campanha da Fraternidade de 1996, promovida pela Conferência Nacional do Bispos do Brasil (C.N.B.B), as elites econômicas mantêm uma postura cínico-realista, seus membros detendo (e sabem que detêm) recursos de poder que lhes dão acesso direto às autoridades constituídas, influenciam no resultado das eleições e fazem pressão sobre decisões governamentais que não lhes interessam.
A classe média é influenciada por duas características básicas: a ânsia de copiar padrões de consumo das elites e o temor obsessivo pelo fantasma do empobrecimento, alimentando uma “cultura de não comprometimento pessoal”, sendo grande alvo da propaganda e das propostas partidárias. Porém, essa parcela social influi e pode decidir as eleições como formadora de opinião. E é nela que surgem os líderes para revoluções e os grupos de apoio para promoverem golpes de Estado.
O último grupo é o das classes empobrecidas, existindo três subconjuntos: os politicamente engajados que constituem uma pequena minoria, capazes de influenciar tanto a massa popular desorganizada como setores da classe média; setores populares de tradição religiosa integrando neles milhões de fiéis que fazem parte do que se poderia se chamar “massa religiosa tradicional”; e a massa desorganizada educada para entender que a política constitui espaço que não lhe é permitido – um terreno proibido. Esta última assume a postura de “tirar algum proveito pessoal”, trocando o voto por um favor.
De fato, a politização é um processo fundamental numa sociedade democrática. Inevitavelmente, no reino da política, não há como escapar do impacto devastador que ela provoca. Com o uso do voto consciente “aux armes citoyens! Marchon, Marchon!”.
O autor, José Renato Ferraz da Silveira, é professor do Iesb-Preve e Colégio Fênix. Este artigo é dedicado ao amigo Laércio de Oliveira e à incrível turma de Ciência Política