08 de julho de 2026
Articulistas

Vamos com calma!


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“Para especialistas, crise de alimentos abre oportunidade para América do Sul”. É realmente lindo ler tal afirmação, mas antes de sermos levados pela euforia da palavra “oportunidade”, vamos nos situar no âmbito brasileiro, pelo menos. Primeiro ponto a ser considerado diz respeito à assertiva de aumentar a produção agropecuária e ajudar a amenizar a crise de alimentos, mas, segundo o ministro Reinhold Stephanes, sem devastar a Amazônia. Ora, vejamos, é sabido que as fronteiras agrícolas avançam cada vez mais em direção ao norte do país e para avançar a mata tem de ser derrubada. Não há outro jeito a curto prazo. É assim que acontece, pois a proposta de reforma agrária, de fundamental importância quando o assunto é aumento da produção agropecuária, passa longe de ser debatida. Já as medidas postas em prática são analisadas rapidamente e raramente têm intrínseco a elas o sustentável. Então dizer que a Amazônia não vai ser devastada é algo risível (é melhor rir do que chorar), pois se com a demanda atual a mata já é derrubada, para suprir a necessidade gerada pela crise alimentícia, o arraso vai ser ainda maior.

Um parêntese que tem de ser feito também sobre a questão ambiental diz respeito ao Cerrado. Cerrado é o segundo maior bioma (conjunto de fauna e flora) brasileiro, ocupa cerca de 23% do território nacional, sendo superado apenas pela Floresta Amazônica. Ele tem sido devastado de forma alarmante pela expansão agropecuária, mas isso quase nunca é noticiado. Muitos não consideram danosa a devastação do cerrado devido ao fato de ele não ser coberto por densas florestas, mas isso é um gigantesco engano, pois mesmo não tendo árvores frondosas, ele possui enorme diversidade de arbustos e animais, além de abrigar nascentes dos principais rios das bacias Amazônica, do Prata e do São Francisco. O Centro Oeste do Brasil é área de cerrado e cada dia mais se vê pastagens e plantações em detrimento da diversidade do bioma.

Após tal parêntese outra questão tem de ser levantada, agora sobre recursos humanos. Para se retirar a vegetação original e aumentar a área de produção agropecuária, mão-de-obra tem de ser contratada. Isso até seria um ponto positivo, geração de emprego, se não fosse a forma degradante de trabalho a que o empregado é submetido. Serviços como derrubar árvores, serrar, carregar tocos, não exigem qualificação do trabalhador e sim força física. Assim o trabalhador sofre um desgaste tremendo, pois não há limite de horas de atividades, as condições de trabalho são péssimas (instrumentos de segurança como capacetes, luvas, são raríssimos), há muito acidentes no trabalho, como perda de dedos, além de os empregados serem muito mal remunerados. O cenário é tão problemático que há vários casos de trabalho escravo ou de semi-servidão, chegando-se a castigos por parte do patrão como queimar o trabalhador com ferro em brasa.

E por último o ministro Stephanes afirma que o Brasil vai transferir gratuitamente tecnologia dominada pela Embrapa para os países da América do Sul para que estes aproveitem a oportunidade e aumentem sua produção. Quanto altruísmo por parte dos brasileiros, não! Logo o Brasil que se julga superior aos países vizinhos, que tem uma política imperialista com relação aos mesmos. É de ficar com a pulga atrás da orelha com tanta solidariedade. Por tudo isso, fiquemos atentos nos desdobramentos da grande oportunidade de crescimento da produção agropecuária para América do Sul.

A autora, Raquel Faccioli, é estudante de jornalismo da Unesp