08 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: Vida útil de um automóvel

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Já foi dito por economistas e até por executivos da indústria automobilística que uma das causas da recessão mundial de vendas de carros novos é a maior durabilidade dos mesmos, o que aumenta proporcionalmente a idade média da frota no mundo.

Falei recentemente que na década de 60 a ferrugem atacava ferozmente a lataria dos carros em pouco tempo, pois tanto a chapa não tinha a preparação adequada quanto os procedimentos de pintura eram deficientes. Hoje um carro novo tem garantia por escrito de 5 anos contra corrosão, no mínimo. Naquela época, os motores precisavam trocar o óleo do carter a cada 1.500 ou 2.000 km apenas, devido aos filtros de óleo precários e à própria qualidade dos óleos lubrificantes. Hoje, os fabricantes de motores recomendam a troca de óleo a cada 10.000 ou até mesmo 15.000 km, em função da qualidade dos materiais usados nos componentes, das folgas e atrito entre as peças e da qualidade dos aditivos adicionados ao lubrificante, que suportam temperaturas maiores. O fato dos frentistas continuarem a insistir em óleo para 5.000 km só serve para quem roda muito pouco (até 10.000 km por ano), pois o óleo se oxida nesse espaço de tempo e perde as características ideais de lubrificação. Se rodar mais do que isso, respeite a orientação do fabricante que estará respeitando também ao seu bolso e ao meio ambiente. O conjunto motor e câmbio atuais duram mais de 200.000 km, se bem tratados.

Veja o caso dos pneus, que naquela época duravam em média 20.000 km e hoje ultrapassam freqüentemente os 60.000 km, e alguns bem mantidos chegando até a 80.000 km. No caso das pastilhas de freio, inicialmente tinham que ser substituídas a cada 10.000 km, mas hoje chegam a durar em média mais de 50.000 km em uso urbano apenas. Quando se usa muito estradas, não é raro trocar-se as pastilhas de freio com mais de 100.000 km rodados. Claro que isto depende do motorista, pois tem gente que usa mais o freio do que o acelerador e, conseqüentemente, gasta mais freio. Um bom motorista usa também o freio motor para reduzir a velocidade, poupando todo o sistema de freio. Falando em freio, a troca de fluido do sistema deve ser feita a cada 2 a 3 anos, nunca antes, nem em função da quilometragem do carro, por ser absolutamente desnecessária. Algumas oficinas recomendam trocar a cada ano, mas não precisa. A troca deve ser feita porque o fluido de freio tende a absorver a umidade do ar com o tempo.

O mesmo acontece com a bateria. Por ser química, sua vida útil é influenciada mais pelo tempo de vida do que pela quilometragem ou recargas. Uma boa bateria dura de 2 a 3 anos, independentemente se a pessoa rodou 20.000 ou 200.000 km neste período.

No caso da embreagem, a situação é outra. Ela se desgasta mais por mau uso do que por tempo de funcionamento. Dirigir com o pé esquerdo descansando sobre o pedal da embreagem, parar em sinal fechado com a primeira marcha engatada segurando na embreagem ou demorar a soltar a embreagem em saídas de aceleração, patinando a embreagem, tudo isto faz com que ela vá para a cucuia muito mais rápido do que o previsto. Uma boa embreagem é para durar pelo menos 100.000 km sem precisar de revisão ou troca.

O mesmo acontece com os amortecedores. Lembra-se que há 30 anos atrás um fabricante recomendava a troca do jogo de amortecedores a cada 30.000 km? Isto é que é nivelar por baixo para vender mais! Ainda se usa esta mesma estratégia para empurrar amortecedores novos no mercado, e aproveitar os ainda bons que foram retirados para, após um banho de tinta, serem vendidos novamente como recondicionados para otários “espertos”. Um bom amortecedor usado dentro dos limites pode durar mais do dobro disso, e se precisar pode ser trocado apenas o par dianteiro ou o traseiro, não necessariamente o conjunto todo. Mas sempre aos pares, lembre-se.

Portanto, cuidado com essa tal de “promoção de manutenção preventiva” que algumas concessionárias e oficinas nos enviam. Muitos componentes se desgastam de forma diferente dependendo do motorista, e sua troca preventiva por tempo de uso ou quilometragem pode ser inadequada. O correto é sempre fazer uma revisão em um mecânico de confiança e trocar as peças que chegarem ao limite de desgaste, sem nunca exceder este limite por segurança.

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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.