08 de julho de 2026
Polícia

Caseiro confessa ter matado Sapé

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 7 min

Silenciar o ex-secretário municipal de Esportes, José Roberto Franco, o Sapé, 53 anos. De acordo com a Polícia Civil, esse teria sido o motivo que levou o caseiro Roberto Carlos Lopes, 42 anos, em parceria com o pintor Evanildo Fontes Martins, 43 anos, a matar Sapé. A vítima teria descoberto que os dois seriam os responsáveis pelos furtos de animais na região do Vale do Igapó e recomendado ao dono da fazenda onde o caseiro trabalhava que o demitisse.

Lopes e Martins foram presos e recolhidos à cadeia de Duartina. Para a Polícia Civil, o crime está esclarecido. Sapé foi encontrado morto no dia 21 de maio, com duas perfurações de bala - uma no peito e outra na nuca - dentro do carro da namorada, no Vale do Igapó, próximo à fazenda onde mantinha uma criação de vacas leiteiras, mesmo local onde o caseiro trabalhava. Ele estava desaparecido desde a manhã anterior.

Segundo a polícia, Lopes, conhecido como Betão, e Martins, o Nil, planejaram a morte de Sapé e o executaram com uma espingarda artesanal calibre 38. Lopes confessou ter disparado. Já Martins, acusado de ser o dono da arma, de ter ajudado a carregar o corpo e de ter dirigido o veículo até o local onde foi abandonado com Sapé já morto, negou a participação.

O delegado Ricardo Dias, da equipe de homicídios da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), juntamente com os investigadores Thiago Chacon e Antônio Alício Thomazini, conduziram a apuração do caso. Quando a investigação começou, havia muitas hipóteses, inclusive de crime por motivação política.

Na tarde de ontem, Dias revelou como foi o trabalho da equipe e como chegou ao caseiro e ao pintor. “Essa conclusão é embasada, demandou muito trabalho e existe um conjunto probatório que será apresentado ao Poder Judiciário, que dá suporte a tudo”, observa Dias.

“Havia no Vila do Igapó um certo temor de alguns proprietários rurais em razão de pequenos crimes, furtos de gado, pequenos roubos. E um proprietário recebeu a indicação que o Sapé teria interesse em arrendar a fazenda. Isso também ajudaria a ‘fazer um a limpeza da área’ porque todo mundo sabia do temperamento do Sapé, que não convivia com coisa errada, que ele tinha um senso de Justiça muito aguçado”, destaca Dias.

De acordo com ele, Sapé percebeu que estava havendo um sumiço de carneiros da fazenda arrendada e desconfiava do caseiro. “O Sapé viu o que estava acontecendo, alertou o proprietário da situação, sugerindo que o caseiro fosse dispensado”, informa o delegado.

Durante as investigações, a equipe da DIG verificou no Vale do Igapó era sabido o envolvimento do caseiro e do pintor em furtos, especialmente de gado. “O Sapé passou a levantar por conta própria informação sobre eles e constatou essa situação. Então, houve uma percepção por parte do Roberto Carlos Lopes que o Sapé precisava ser calado. Se ele continuasse investigando, muito provavelmente iria fomentar a presença da polícia”, explica Dias.

Além disso, o delegado revela que Martins tem diversas passagens pela polícia, com uma prisão, e que é investigado pela Polícia Civil de Agudos por furto de gado.

Planejamento

De acordo com Dias, a dupla arquitetou a emboscada para Sapé para o dia 19 de maio, um dia antes do crime. Naquela manhã, eles teriam colocado um palanque atravessado numa ponte, para que Sapé fosse obrigado a parar seu carro. Quando ele descesse para remover o obstáculo, seria atingido. Para azar da dupla, naquele dia, Sapé fez um outro trajeto.

Na manhã seguinte, eles voltaram ao plano e novamente o ex-secretário fez um caminho diferente. Irritados, teriam resolvido dar cabo do plano na mesma data. Entre 8h30 e 9h, teriam saído da tocaia e ido até a mangueira da fazenda, onde Sapé ordenhava suas vacas. Lá, ele foi morto.

“Não houve nenhuma chance de defesa ao Sapé. Se ele tivesse tido a mínima chance, muito provavelmente o desfecho não seria esse”, avalia Dias. De acordo com o delegado, o caseiro confessou que Sapé tirava leite quando ele chegou por trás. Quando o ex-secretário virou para ver quem se aproximava, Lopes teria efetuado o primeiro disparo. Sapé caiu de bruços e então, foi feito o disparo que atingiu a nuca da vítima. Ele teria contado com a ajuda de Martins, para remover Sapé do local e o colocar dentro do Palio. O corpo foi deixado na Alameda dos Brejais, onde foi localizado no dia seguinte pela manhã, por policiais militares.

A arma foi colocada dentro do estojo e atirada num brejo localizado em uma granja no Distrito de Guaianás, em Pederneiras, revelou Lopes. Ela estava com dois cartuchos intactos e dois deflagrados. Após o homicídio, a dupla teria voltado a seus afazeres normalmente. Dias depois, Lopes teria deixado de trabalhar na fazenda

Com os mandados de prisão temporária em mãos, policiais da DIG localizaram o caseiro na casa de sua irmã, no Parque Jaraguá. Já Martins foi preso enquanto prestava serviços de pintura em uma casa do Altos da Cidade. “Evanildo tinha a certeza da impunidade e esse foi o seu erro”, destaca Dias.

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Depoimento forneceu as pistas

Para se chegar aos responsáveis pela morte de Sapé, o delegado Ricardo Dias explica que primeiro ouviu pessoas próximas à vítima, como amigos e familiares, para tentar saber o que houve naquele dia. “E uma das primeiras pessoas ouvidas pela DIG foi o caseiro da fazenda (Roberto Carlos Lopes), que disse que Sapé recebeu uma ligação e teria se ausentado muito nervoso dirigindo o Palio”, afirma o delegado.

A DIG rastreou as ligações efetuadas, recebidas ou não atendidas pela linha telefônica móvel do Sapé e não foi constatada nenhuma ligação no período informado pelo caseiro. Portanto, surgiu a primeira suspeita. Dias também conta que ao acompanhar o exame do corpo de Sapé no Instituto Médico Legal (IML), verificou que ele estava muito suja de estrume, principalmente as suas botas, o que é normal porque ele estava ordenhando vacas. “Mas nós observamos, e esse detalhe nos pareceu muito interessante, que os pedais do Palio dele, tanto a embreagem, freio e acelerador, estavam absolutamente limpos. Portanto, ele não poderia ter dirigido o carro com o pé sujo daquele jeito”, frisa o delegado.

Outro detalhe que chamou a atenção foi a posição de Sapé no banco do motorista quando o carro foi encontrado. Segundo Dias, a posição era incompatível com a altura da vítima. “Para nós, era ponto pacífico que ele não tinha recebido ligação alguma e que não tinha dirigido aquele carro”, pontua.

Tanto o caseiro Roberto Carlos Lopes quanto o pintor Evanildo Fontes Martins estão com prisão temporária decretada por 30 dias, enquanto a polícia finaliza o inquérito que investiga o caso, que deverá ser relatado como homicídio doloso, com agravante de motivo torpe e com impossibilidade de defesa à vitima.

O delegado Abel Cortez, titular da DIG, elogiou o trabalho da equipe de homicídios. “É concisa, mas bastante empenhada e muito boa”, afirma. O delegado seccional Doniseti José Pinezi destacou a conclusão do crime. “Está 100% solucionado e rico em provas, que é o que mais interessa para uma condenação pela Justiça”, pontua.

O Jornal da Cidade tentou conversar com o caseiro, mas ele afirmou que só fala em juízo. Já Martins negou todas as acusações e ressaltou que não tinha problemas com Sapé. “Ele era meu advogado e dava leite para a minha filha. Trabalhei com ele quando era garoto”, disse.

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Como ocorreu

• Sapé ordenhava vacas na fazenda nas imediações do Vale do Igapó quando o caseiro Roberto Carlos Lopes chega por trás. Sapé percebe, e vira-se e leva o primeiro tiro de espingarda no peito.

• Ferido, Sapé cai de bruços. Lopes se aproxima e atira pela segunda vez, atingindo a nuca de Sapé.

• Com a ajuda de Evanildo Martins Fontes, Lopes carrega o corpo de Sapé até o Palio que ele estava usando.

• Fontes assume a direção do carro e segue até um local de difícil acesso no Vale do Igapó. Lá, abandona o carro com o corpo dentro.