09 de julho de 2026
Cultura

O abandono das máscaras

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 3 min

A busca incessante do homem em despir de suas máscaras e encontrar o que seria sua verdadeira essência. Esse e outros dramas, que permeiam a vida dos seres humanos, que o Grupo XPTO traz em “O Público”, de Federico Garcia Lorca. O espetáculo será apresentado hoje e amanhã, às 20h no Serviço Social do Comércio (Sesc).

Foram dois anos de preparo para que a companhia chegasse a apresentar a obra considerada mais complexa do dramaturgo espanhol Garcia Lorca. O espetáculo, inédito em palcos do País, estreou no início do mês em Campinas e, depois de Bauru, segue para Araraquara e para a Capital. “Foram muitas as motivações. A sua complexidade, o fato de nunca ter sido montada no Brasil e de que, embora escrita em 1930, mexe com questões ainda muito atuais”, explica o diretor, Osvaldo Gabrieli sobre a escolha da peça.

Além de abordar dramas humanos, como a questão da sexualidade e a procura do que se esconde no cerne de cada um de nós, “O Público” levanta questionamentos sobre o próprio fazer teatral. “A peça fala da busca por um teatro que não traga apenas divertimento, mas também grandes conflitos humanos. Baseado nas comédias francesas, sempre muito superficiais, o autor estava, de alguma forma, lutando em defesa de um teatro mais essencial”, explica Gabrieli.

A peça é fruto da viagem de Lorca a Nova York motivada por uma grande crise pessoal. Expressa o nascimento de uma nova poética, que deu forma ao que o dramaturgo considerou seu “trabalho mais universal”, seu “verdadeiro teatro”. O texto, considerado o principal expoente da sua fase surrealista, por pouco não se perdeu. Antes de sua última viagem a Granada, onde seria brutalmente assassinado, Lorca entrega o manuscrito da peça a um amigo próximo, cujo empenho em preservá-lo fez com que a obra chegasse até os nossos dias.

Segundo Gabrielli, a viagem aos Estados Unidos foi um choque diante da forma que o poeta via o mundo. O que resultou em uma nova maneira de escrever, diante de uma dramaturgia que, de alguma forma, tocava os seus próprios problemas. “Levantar a questão da homossexualidade, por exemplo, foi uma forma do autor tirar suas próprias máscaras e expor tudo o que estava vivendo naquele momento”, acredita Gabrieli.

• Serviço

Espetáculo “O Público” hoje e amanhã, às 20h no ginásio do Sesc. Ingressos: R$1,00 (trabalhador no comércio e serviços matriculados e dependentes), R$2,00 (usuário inscrito, estudantes com comprovante, professores da rede pública e maiores de 60 anos) e R$4,00 (demais interessados). O Sesc fica na avenida Aureliano Cardia, 6-71. Mais informações pelo telefone (14) 3235-1751.

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Enredo

A peça começa com o Diretor de teatro que está em crise e, durante uma montagem de “Romeu e Julieta”, resolve substituir a atriz que faz Julieta por um jovem ator. O público descobre a troca e assassina os intérpretes, inclusive a verdadeira Julieta, que estava amordaçada embaixo das poltronas. O crime desencadeia uma revolução no palco que coloca em evidência o próprio fazer teatral, opondo o teatro das aparências ao que revela a verdade por trás das máscaras.

A encenação transcorre como um jogo de mutações e metamorfoses, com personagens que se transformam constantemente. “Na verdade, todos os personagens que vão aparecendo são como frutos da cabeça do Diretor”, explica Gabrieli. Esses personagens, à medida que criticam o trabalho do Diretor, obrigam-no a atravessar um grande armário, passagem que sujeita a todos a despir de suas máscaras.

“O armário não é apenas uma metáfora em relação à homossexualidade. Significa transformar-se, ‘sair do armário’ para a vida”, esclarece. Com algumas surpresas que o espetáculo reserva, a peça coloca atores, personagens e o próprio público na busca de verdades ocultas.