10 de julho de 2026
Polícia

Em visita a Bauru, coronel da reserva diz que a política salarial é discriminatória

Marcelo de Souza
| Tempo de leitura: 3 min

“O governo do Estado de São Paulo criou três polícias dentro da Polícia Militar”. A afirmação é do coronel da reserva Hermes Bitencourt Cruz, presidente da Associação dos Oficiais da Reserva da PM, que esteve ontem em Bauru para falar sobre a política salarial do governo estadual. A frase não significa que o estado criou três forças de combate ao crime. Pelo contrário. Segundo Cruz, o governo dividiu a PM em três ao utilizar políticas salariais diferentes para os policiais da Capital, do Interior e para os inativos. “A política salarial do governo divide os policiais da ativa em dois e cria uma terceira categoria que são os policiais da reserva, reformados e pensionistas”, afirmou.

De acordo com Cruz, a luta da associação é justamente para reverter esse quadro de discriminação, que segundo o coronel é inconstitucional. “Ele não pode fornecer reajustes para quem está na ativa e não dar o mesmo índice para quem está aposentado, então, ele está criando um sério problema na polícia”, salientou, ressaltando que tenentes-coronéis não se aposentam porque perdem R$ 2 mil no salário.

A situação dos policiais chegou a tal ponto, segundo Cruz, que os tenentes da Polícia Militar são chamados de “eternentes”, ou seja, tenentes eternos, porque não podem se aposentar pois não possuem tempo de serviço nem posto à altura do tempo de serviço dele. “Ele (governo) está criando uma situação impertinente, desconfortável, tanto para quem está na ativa, quanto para quem já estaria na condição de reserva ou reformado”, frisou.

Para se ter uma idéia, há casos de policiais perderem quase a metade do salário quando passam para reserva. Essa situação obriga policiais já idosos a se manterem na ativa para não perderem o que conquistaram ao longo da carreira.

Além da questão salarial, outros problemas sérios estão sendo enfrentados, não só pelos PMs da reserva, mas também pelos policiais da ativa. Para o coronel, os problemas só começarão a serem resolvidos quando o governo do Estado autorizar o comando da PM a fazer uma readequação do efetivo. “Existem batalhões, por exemplo, com mais de mil homens. E existem companhias, que normalmente são um terço do batalhão, mas com o mesmo efetivo. Existe uma disparidade, que tem de ser corrigida com a readequação do efetivo, para se ajustar à operacionalidade”, disse.

Segurança pública

O coronel Cruz também falou a respeito das políticas de segurança pública. Segundo ele, o Estado perdeu seu poder intimidativo em relação aos criminosos, e isso, de acordo com Cruz, estimula o crime e, às vezes, até a omissão do policial. “O governo diz que está reduzindo a violência, só que nenhum cidadão sente isso”, destacou.

Cruz afirma ainda que as pessoas já saem de casa com a expectativa de serem assaltadas, tal a sensação de insegurança que predomina no Estado. Da mesma forma, ele salientou que os policiais têm a expectativa negativa de ser agredido ou ofendido quando for abordar um cidadão ou um criminoso. “Criou-se uma condição de estímulo à violência, porque se formos considerar o triângulo do crime, de um lado você tem as frustrações e necessidades das pessoas, que estão elevadíssimas. Por outro lado, como a educação é falha, ela não desenvolve inibidores internos. E se olharmos os inibidores internos, que são a Justiça, o sistema prisional e a polícia, veremos que também não estão exercendo esse fator mais”, salientou.

Para o coronel, os presídios nada mais são do que cercados, onde se jogam os presos e que possuem leis próprias, criadas pelos marginais, que comandam o crime dentro e fora das prisões. “Está se criando uma expectativa de que a população deve procurar a segurança fora do Estado, porque o Estado não dá mais conta”, disse, lembrando que antigamente essa situação era restrita às capitais, mas agora se espalhou pelo Interior.