10 de julho de 2026
Nacional

Bolsa-Família ajuda a comprar mais alimentos, mas não acaba com miséria

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

São Paulo - Os beneficiários do Bolsa-Família afirmam que o programa os ajuda a consumir mais alimentos - especialmente açúcares- e não causou, na opinião dos favorecidos, o efeito preguiça, ou seja, o acomodamento do trabalhador por causa da renda garantida. Mas faltam programas que ajudem a superar a pobreza e diminuir a dependência dos recursos.

É o que mostra uma pesquisa coordenada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e feita pelo instituto Vox Populi com beneficiários do Bolsa-Família. Com financiamento da Finep (órgão de apoio à pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia), o objetivo principal do levantamento foi investigar o nível de segurança alimentar e nutricional dos favorecidos.

Os itens com os quais eles disseram mais gastar o dinheiro do Bolsa-Família foram alimentação, material escolar e vestuário. No quesito alimentação, o principal aumento foi no consumo de açúcares: 78% dos titulares disseram ter aumentado a compra de açúcar, sorvetes, gelatinas, bombons ou refrigerantes. Em seguida aparecem arroz, cereais e leite.

De acordo com Francisco Menezes, diretor do Ibase e coordenador-geral da pesquisa, o Bolsa-Família tem ajudado seus beneficiados a aumentar a variedade de alimentos consumidos. Ele sugere, no entanto, que sejam criados programas para aumentar o consumo de produtos como legumes, verduras, frutas e carnes e diminuir o de açúcares.

“Não dá para dizer que as famílias estão fazendo mau uso do dinheiro. A pesquisa mostra que aumentou o consumo de arroz e feijão, o que é muito positivo. Mas, ao mesmo tempo, também cresceu o gasto com doces, biscoitos e refrigerantes, o que nos levou a recomendar programas de educação alimentar”, diz Menezes.

O diretor do Ibase lembra, no entanto, que o alto consumo de açúcares também pode ser uma estratégia de sobrevivência, já que são produtos que podem ser estocados e ajudam rapidamente a aplacar a fome.

A secretária de Renda da Cidadania do Ministério do Desenvolvimento Social, Rosani Cunha, diz que isso não aconteceu só no programa. “A Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE já mostrava essa tendência para toda a população.”

Renda

Outra recomendação de melhoria do programa feita na pesquisa do Ibase é aumentar a articulação com programas que permitam às famílias sair da situação de pobreza. A pesquisa identificou que apenas 16% dos titulares do benefício disseram que o Bolsa-Família os ajudou a ingressar em programas de geração de renda. No caso de cursos profissionalizantes, o percentual foi ainda menor: 8%. “A maioria entende que o programa é temporário e quer trabalhar no setor formal. Por isso, fizemos uma forte recomendação de que o Bolsa-Família se articule mais com outros programas”, diz Menezes.

Cunha disse que a estratégia de integração com outros projetos começou com o programa Brasil Alfabetizado, mas que já está se expandindo: “Para qualificar, é preciso antes aumentar a escolaridade”.

Serguei Soares, pesquisador do Ipea e autor de vários estudos sobre o Bolsa-Família, no entanto, minimiza a importância dos programas de qualificação profissional para tirar da pobreza as famílias.

“Nós últimos 20 anos, gastamos muito dinheiro com esses programas, mas, sem crescimento, o resultado foi praticamente nulo. De nada adiantar você qualificar uma pessoa se não houver oportunidade de emprego. Agora que voltamos a ter crescimento, é possível que os programas tenham mais eficácia, mas é preciso crescer.”

Sobre a não existência do efeito preguiça (99,5% dos entrevistados disseram que não deixaram de fazer algum tipo de trabalho depois que passaram a receber o Bolsa-Família).