O grande crescimento da frota registrado em nosso País (nos últimos quatro anos, passou de 125.480 para 162.254, somente em Bauru) é um fenômeno que não se dá ao acaso. A que se pese as deficiências do transporte público oferecido à população, é impossível deixar de reconhecer que existe no Brasil uma espécie de culto ao automóvel.
“Carro, em nossa cultura, é muito mais do que um mero meio de transporte - é sinônimo de poder e status social. Quanto mais novo, mais caro e mais rápido ele for, mais o proprietário irá se distinguir das demais pessoas”, avalia Cláudio Bertolli Filho, professor do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru.
Não à toa, pessoas como ele - que não dirige há cerca de dez anos - seriam vistas como exemplos de fracasso. “Até hoje sou questionado a respeito desse fato, como se fosse uma atitude incompatível com minha posição de professor universitário”, brinca.
Mais forte entre os homens, o culto ao automóvel se manifestaria no universo masculino por meio dos gestos de audácia demonstrados por motoristas destemidos. “É como se existisse um disputa velada entre eles, no sentido de encarar o outro e tentar superá-lo em tudo, seja numa ultrapassagem arriscada, seja numa manobra perigosa. Isso explica porque, apesar de tantas moças dirigirem, o número de acidentes envolvendo rapazes ser bem maior”, salienta Bertolli Filho.
O culto ao automóvel não se restringiria apenas aos gestos de auto-afirmação que os condutores assumem quando estão ao volante. “Podemos dizer que existe uma relação sentimental, como que erotizada, entre o homem e seu carro. Isso se manifesta nos atos de carinho que as pessoas têm com seu automóvel - como quando passam horas e horas lavando e polindo a lataria - ou mesmo quando elas arriscam a vida para evitar que esse bem tão precioso seja levado por um ladrão”, pondera.
Dessa forma, pensa Bertolli Filho, o valor conferido pelas pessoas ao carro que possuem iria além do seu preço enquanto mercadoria. “É como se fosse um ente da família, com a vantagem de ser o único na casa que não sofre de problemas de auto-estima”, brinca.
Bertolli Filho lembra que esse culto ao carro costuma se manifestar com mais força em sociedades individualistas, como a brasileira e a norte-americana. “Na Europa, as pessoas preferem morar nas áreas centrais das cidades e utilizam com freqüência os transportes coletivos. Nos Estados Unidos e aqui, ao contrário, o carro é visto como instrumento de libertação, que permite superar distâncias imensas em um curto espaço de tempo”, acredita.