Aprender e empreender. Estes são os motores que impulsionaram a vida de Evaristo Rodriguez Gonzalez, presidente do Sindicato dos Panificadores de Bauru e Região, e também o motivaram a deixar a cidade portuária de Vigo, província da Galícia, na Espanha, para mudar-se para o Brasil. Movido por esses ideais, ele chegou a Bauru, no final da década de 60, para abrir a padaria Torre de Belém, que fez história na cidade.
Apesar de descender de uma família de padeiros, ele confessa que não sabe fazer um pão. Mas não abre mão de um pãozinho francês. “Eu sou um administrador. É isso que eu sei fazer”, enfatiza. Com esse espírito, viu sua rede chegar a cinco unidade em Bauru, empregar 100 funcionários, sempre com inovações. “Fomos a primeira a trabalhar 24h. Nem em São Paulo se fazia isso”, lembra.
Com a venda da padaria há 15 anos, ele passou a se dedicar às ações do sindicato e também à Escola de Panificação, que já formou mais de duas mil pessoas. Além disso, faz questão de trabalhar para a comunidade, principalmente por meio das atividades do Lions Club. “Faço tudo por Bauru, porque a cidade me deu tudo o que eu tenho”, destaca.
Com o forte sotaque espanhol, que ainda não perdeu depois de 47 anos no Brasil, ele conversou com o Jornal da Cidade na última quinta-feira. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Jornal da Cidade - Como o senhor decidiu vir para o Brasil?
Evaristo Rodriguez Gonzalez - Em 1961, quando tinha 19 anos, eu tomava conta da gráfica onde trabalhava. Era como se fosse o gerente. Era uma gráfica pequena, mas na ocasião trabalhávamos para empresas como a Citroën da Espanha, que está em Vigo. E eu queria evoluir na minha profissão, aprender mais. Se você diz que sabe de tudo, você não sabe nada. Vigo, na Galícia, é uma cidade litorânea, parecida com Santos. É a cidade que tem a maior frota de navios de pesca da Europa. Uma cidade que se destaca pela pesca e hoje como sede da fábrica da Citröen. Seria uma baía, como o Rio de Janeiro, mas tem 360 mil habitantes.
JC - Mas por que o Brasil?
Gonzalez - Na minha profissão, qual era o lugar que eu poderia aprender mais? Na Alemanha, que é onde se destaca a indústria gráfica e minha idéia era ir para lá. Mas eu tinha o problema da língua. E minha mãe não estava muito de acordo com a idéia de eu sair da Espanha, porque iria ficar só meus pais e a minha irmã em casa. Como, na época, tinha uma tia que veio do Uruguai para São Paulo, minha mãe aceitou melhor a idéia. Naquela ocasião, o Brasil já não admitia mais imigração para a lavoura, mas admitia em profissão. E eu era gráfico e o País me aceitaria como imigrante.
JC - E o que o senhor sabia sobre o País na época?
Gonzalez - Notícias do Brasil começamos a ter em 1958, com a Copa do Mundo, o Pelé como revelação. Um garoto de 16 anos que se destacava e tinha derrotado vários times. Vimos que o governador do Estado de São Paulo ganhou as eleições nacionais, o Jânio Quadros. Depositando nessa pessoa a esperança que o País estaria se renovando. Em agosto, resolvi vir. A pessoa que tramitou a minha documentação falou: “Você vai para um país que tem duas safras agrícolas de milho por ano. Isso não existe”. Vim para cá num navio francês, chamado Lois Lumière. Foram dez dias de viagem de Vigo a São Paulo. Desembarquei em Santos no dia 22 de agosto. De manhã, meu primo estava me esperando e subimos para São Paulo e, quando chegou de noite, estavam falando que o Jânio tinha renunciado.
JC - No Brasil, foi trabalhar onde?
Gonzalez - Eu fui trabalhar como gráfico no grupo Novo Mundo, no bairro de Santana, na Capital. Eles tinham uma gráfica grande lá e comecei a aprender. Eu não entendia de português, mas entendia da minha profissão. Na segunda semana recebi um trabalho para fazer. O gerente me explicou, mas eu não entendi direito por conta do idioma. Comecei a fazer do meu jeito. E o encarregado passou para ver. Eu disse que estava fazendo daquela maneira porque do jeito que me falaram iria demorar o dobro do tempo. E tempo é serviço. Ele chegou e disse: “Eu não vou falar mais nada para você porque eu sei que você sabe trabalhar”. Quando ele falou essas palavras, eu chorei. Eu larguei meu pai e minha mãe e não chorei. Mas estar num País estranho e ter esse reconhecimento, eu não tive jeito de agüentar.
JC - O senhor ficou muito tempo trabalhando com gráfica?
Gonzalez - Fiquei dois anos e meio e já tinha aprendido tudo o que seria de conhecimento na empresa, mas chegou um momento que eu estava estacionado. E comecei a pensar em voltar para a Espanha. Eu tinha um amigo descendente de espanhol. Ele me falou que o irmão trabalhava vendendo pinga para bares e ganhava mais do que a gente. E pensei: antes de retornar para Espanha vou tentar ser vendedor. Apareceu no jornal vaga para vendedor da gráfica Gomes de Souza, que era o maior grupo gráfico do Brasil, sediado no Rio de Janeiro. Eles tinham uma empresa chamada Chenille do Brasil e estavam querendo vender ações do capital e selecionavam pessoas para isso. Na entrevista, cheguei para o diretor e disse: “Eu sou gráfico, nunca vendi nada e quero ser vendedor”. E ele me contratou. Tive um curso de três meses de venda, durante esse período recebia o dobro do que eu ganhava. Trabalhei três ou quatro meses e teve o golpe militar de 1964. E aí pensei “Quem vai investir na bolsa?”.
JC - Foi quando o senhor chegou a Bauru?
Gonzalez - Aí eu comecei a vir para o Interior com uma equipe de uma empresa de carnê de vendas. A pessoa comprava o carnê e, ao terminar de pagar, recebia o tecido para fazer um terno. Fui pelo Interior até chegar a Bauru. Aqui, nós pernoitamos no Posto 15. Ficamos duas semanas lá e conheci a Laura, minha esposa. A família dela tomava conta do lugar. Voltei para São Paulo e fui vender umas ações de um cliente. O diretor que me contratou para a Chenille me encontrou. Ele me convidou para trabalhar na Útil SA, a maior empresa de equipamentos da América Latina, para vendas de máquinas de panificação. Por incrível que pareça, meu avô na Espanha era padeiro em Tuy, fronteira da Espanha e Portugal. Minha mãe nasceu dentro de padaria, meus tios ainda têm padaria, mas eu nunca tinha visto como se faz um pão. Fui para São Paulo como vendedor de carnês e voltei vendedor de equipamento de panificação.
JC - Como nasceu a padaria Torre de Belém?
Gonzalez - Eu comecei a trabalhar vendendo equipamentos no setor de Duartina até Panorama, de Pirajuí a Três Lagoas e de Assis a Porto Epitácio. Trabalhei nessa região até 1970. E voltava para Bauru, para encontrar com a Laura, que trabalhava na Praça Machado de Mello. Ali tinha uma barraca de revista, um alfaiate, um bar e um açougue. Esses imóveis eram da Beneficência Portuguesa e eles resolveram derrubar tudo e fazer quatro boxes. O alfaiate desistiu do espaço dele. E falei com o genro do dono da banca que ali dava para montar uma padaria. E como ele conhecia o comendador da Silva Martha, presidente da Beneficência, ele conseguiu o local para a padaria. Só que o comendador pediu para colocar um nome português. Lendo, vi que Pedro Álvares Cabral saiu da Torre de Belém para descobrir o Brasil. Aí nascia a Padaria Torre de Belém, em julho de 1969. Minha esposa começou a trabalhar na empresa e o negócio foi crescendo até chegarmos a cinco padarias: na Praça Machado de Mello; em frente ao antigo Cine Bauru, na 1.º de Agosto; a terceira na avenida Duque de Caxias com a rua Rio Branco; na rua Ezequiel Ramos, para cima do Cemitério da Saudade, e a quinta na avenida Duque de Caxias com a rua Gérson França. Chegamos a ter 100 empregados.
JC – Logo depois da abertura da padaria o senhor foi para Salvador, não é mesmo?
Gonzalez - Em 1970, a empresa me chamou para ir até a Bahia. Eu pensei em administrar a padaria de longe. Se começasse a dar prejuízo, a gente vendia. Aí fui para Salvador para ver como seria o mercado. Fui de Fusca e levei dois dias para chegar. Lá, a empresa não prestava um bom serviço e estava perdendo espaço para a concorrência. Aqui em São Paulo, dono de padaria é tudo português e lá em Salvador, era tudo espanhol da Galícia. Resolvi alugar um apartamento provisório e levar a família. E os espanhóis me ofereceram um lugar e voltei para Bauru. Comprei um carro que naquele momento serviria para a família, que era a Variant, e fomos para Salvador. Comprei uns móveis meio mixurucas e levei a esposa e o filho. Comecei a vender que nem um maluco e resolveram fazer uma filial na Bahia, me oferecendo a gerência. Eu iria ganhar menos, mas aprenderia uma coisa nova, que era gerenciar uma filial.
JC - Nesse tempo todo, não voltou para a Espanha?
Gonzalez - Nas padarias em Salvador eles trabalhavam de um jeito que permitia passar um período na Bahia e outro na Espanha. Muitos iam visitar os pais. Aí deu vontade de ir para a Espanha. Já fazia 16 anos que eu tinha saído e não tinha voltado. Em 1976, abriram a linha aérea de Salvador a Madri e resolvemos ir. Passamos um dia em Madri e avisei a minha mãe. No dia seguinte, chegamos na hora do almoço. Meu pai estava muito doente, na cama. Quando chegamos, ele quis se levantar e comer junto com a gente na mesa. No segundo dia, ele também quis e minha mãe o levou com a gente. Ele sentou, almoçou e então ele passou a ficar progressivamente mais com a gente.
JC - E como ficaram as coisas em Bauru?
Gonzalez - Na época, o gerente de produção da Torre de Belém era o atual dono da padaria Copacabana, o Wanderlei. O meu cunhado cuidava das finanças e também tinha dois sócios de participação. E eu disse antes de ir para a Espanha que queria montar uma padaria no Altos da Cidade. Na época se falava que a avenida Duque de Caxias seria a avenida Paulista. E deixei avisado que, se tivesse local, a gente iria montar a padaria lá. Apareceu a oportunidade de alugar o prédio. Perguntei o aluguel e ele me falou 5 mil, no dinheiro da época. E pelo prédio pedia 250 mil. Então, como a gente iria ter um investimento grande para montar a padaria, sugeri pagar 320 mil da seguinte forma: no primeiro mês 5 mil como se fosse o aluguel e no 13.º mês a gente dividiria o montante. Ele concordou e fizemos um documento para assinar no fórum. Eu voltei da Espanha, fechamos o negócio e assim nasceu a Torre de Belém da Duque de Caxias, em setembro de 1976.
JC - Como foi a venda da padaria, que era a mais famosa da cidade?
Gonzalez - Em 1978 separamos a sociedade e eu fiquei com as lojas da Duque de Caxias com a Gérson França, a da Ezequiel Ramos e a da 1.º de Agosto. Em 1993 eu vendi a padaria. Ela era bem conceituada na cidade, mas precisava seguir crescendo e meus filhos resolveram ganhar dinheiro no que estudaram e não tinham o interesse. Em 1993 ela estava no auge. Era a maior padaria de Bauru, trabalhava 24h e isso não existia assim, já vendendo refeição. Estávamos bem à frente das coisas que só agora estão acontecendo. Eu me aposentei, minha esposa também e o pessoal de Bauru achou que eu deveria ficar à frente do sindicato, porque teria mais tempo para me dedicar. Montamos a Escola de Panificação em 1993 e quase 2 mil pessoas se formaram lá. Agora, ela está sendo transferida para o Senai. Está em construção e o curso de padaria e confeitaria está previsto para começar em setembro.
JC - E nesses anos trabalhando em padaria aprendeu a fazer pão?
Gonzalez -Nada. Eu sou um administrador. É isso que eu sei fazer. Inclusive, no ano passado, terminei um curso de especialização na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em economia do trabalho e sindicalismo.
JC - E da padaria? o que o senhor mais gosta?
Gonzalez - De pãozinho francês. Os outros, como o pão americano, o de fôrma, todos eles enjoam. O pão francês você pode comer todos os dias.
JC - E os projetos que o senhor trabalha?
Gonzalez - O bolo do aniversário da cidade de Bauru, que começamos a fazer no centenário, com parceria com o JC e é o maior distribuído em pedaços no Brasil. Também faz 12 anos que fazemos, junto com o Lions Club, a colomba pascal, que é distribuída para entidades. Também é feita em Presidente Prudente e Marília. E tem a Semana da Pátria, que já fazemos pelo oitavo ano consecutivo. Eu gosto de partir para a ação, de pegar um projeto e fazer logo. Eu faço tudo por Bauru, porque a cidade me deu tudo que eu tenho. Hoje, gosto de me dedicar às crianças da cidade. Dou graças a Deus que minha família está estruturada e que posso me dedicar à comunidade. A minha esposa também. Nós fazemos parte do Lions Club e trabalhamos bastante.
JC - E como começou a torcer pelo Corinthians?
Gonzalez - Eu gostava do Atlético de Bilbao porque até hoje eles só contratam jogadores bascos e uma época o treinador do time era o brasileiro Martin Francisco. Eles não contratavam jogadores estrangeiros, mas técnico podia ser, para passar conhecimento. Quando cheguei em São Paulo, o Martin Francisco estava treinando o Corinthians e eu tinha um colega espanhol que também era corintiano, então comecei a torcer para o time. E na Espanha eu também torço para o Celta de Vigo, que hoje disputa a segunda divisão.
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Perfil
Nome: Evaristo Rodriguez Gonzalez.
Idade: 66 anos.
Esposa: Laura Tieko Kirita Rodriguez.
Filhos: Eduardo, Eliane e Evaristo.
Hobby: Leitura.
Livro: “Dom Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes.
Filme preferido: “Doutor Jivago”.
Estilo musical: Passo doble e samba.
Time: Corinthians e os espanhóis Atlético de Bilbao e Celta de Vigo.
Para quem daria nota 10: Para o Lions Club International.
Para o que daria nota 0: “Para os erros que cometemos com as crianças”.