Tida como uma das principais defensoras dos estudos com células-tronco embrionárias, Mayana Zatz comemora a aprovação da Lei de Biossegurança, que permite as pesquisas para fins terapêuticos. Para a geneticista, que trabalha principalmente com doenças neuromusculares, a continuidade das pesquisas, que estavam paralisadas à espera da decisão final do Supremo Tribunal Federal (STF), representa não apenas uma vitória da ciência, mas também da sociedade.
A legalização se deu depois de três anos da aprovação da lei pelo Congresso Nacional, quando, no final de maio, o STF pôs fim ao embate judicial que colocava de lados opostos grupos religiosos e cientistas, julgando constitucional a Lei de Biossegurança.
Com isso, as pesquisas feitas em células-tronco de embriões obtidos por fertilização in vitro e congelados há mais de três anos serão permitidas. Para cientistas, essas células, ao contrário das provenientes da medula e do cordão umbilical, se mostram mais eficazes para formar qualquer tecido do corpo como o nervoso.
Com a decisão, o Brasil é o primeiro país da América Latina a permitir as pesquisas de células-tronco e, no mundo, o 26º. Entra no rol de nações como Finlândia, Grécia, Suíça, Holanda, Japão, Austrália, Canadá, Coréia do Sul, Estados Unidos, Reino Unido e Israel.
Mayana Zatz, que é pró-reitora de pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, esteve em Bauru, na última semana, para uma palestra no ‘Café Filosófico’ da CPFL Paulista, na qual discutiu os avanços da genética e procurou esclarecer os mitos e dúvidas que permeiam a área.
Confira a seguir os principais trechos da entrevista que a pesquisadora concedeu ao JC Saúde por telefone.
JC Saúde – O que significou para a senhora, que é uma das maiores defensoras dos estudos com células-tronco embrionárias, a liberação das pesquisas pelo STF?
Mayana Zatz – Para mim foi uma conquista dura, mas fantástica por muitos motivos. As pessoas, por acharem que somos sempre motivados por razões secundárias, podem pensar “que interesse ela tem nisso?”. Pois eu digo que o meu interesse é direto porque eu trabalho com doenças neuromusculares gravíssimas e já vi inúmeros morrerem sem nenhuma esperança. Agora, pelo menos, temos esperança. Não estamos prometendo cura para ninguém, mas o que eu quero é poder dizer para os nossos pacientes que tudo que está sendo feito lá fora (Exterior) poderemos fazer aqui, no nosso País. E é isso que me move além da pesquisa em si: esse contato e o meu envolvimento direto com os pacientes há muitos anos.
JC Saúde – O que a aprovação representa, de fato, para a comunidade científica e para sociedade como um todo?
Mayana – Nós já conseguimos derivar vários tecidos a partir de células adultas, mas é muito mais limitado. Eu não consigo dessas células, por exemplo, obter tecidos nervosos funcionais necessários para o tratamento de várias doenças, como o mal de Parkinson, doenças neuromusculares, entre outras. Diante disso, a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias vai ser extremamente importante para o avanço dos estudos nessas áreas. Outra grande conquista é que somos um estado laico e queremos ter liberdade para fazer pesquisa. Foi uma vitória da população e um ganho inestimável para a sociedade.
JC Saúde – Qual o caminho a ser seguido agora após essa conquista?
Mayana –Escrever projetos, aprová-los e arrecadar recursos para dar início às pesquisas. E é bom deixar claro que não vamos injetar células embrionárias em ninguém. O que defendemos é a possibilidade de fazer pesquisas. E entre pesquisa e tratamento vai um bom tempo.
JC Saúde – Mas esse seria o primeiro passo para o avanço no tratamento de algumas doenças? Quais seriam elas?
Mayana – É o que esperamos, inclusive porque as pesquisas apenas foram aprovadas para fins terapêuticos. As doenças neuromusculares, com as quais trabalho, podem ser muito beneficiadas, além de pessoas que ficaram lesionadas, há vários tipos de câncer, diabetes, entre muitas outras.
JC Saúde –Qual a sua opinião a respeito das pessoas que se opõem aos estudos baseadas no discurso de defesa da integridade da vida?
Mayana – Eu acho que é medo. Medo de pensar o que nós (cientistas) podemos fazer. Mas qualquer avanço pode ser usado por bem ou para o mal. Além disso, tem muita desinformação. Principalmente diante de pessoas muito dogmáticas, você não consegue mudar a cabeça delas. Tratam os embriões como bebezinhos congelados, mas 98% desses embriões são enviáveis e se você descongelar e colocar em um útero, nada acontece. Em contrapartida, já ouvi de um alto líder da religião católica que “A igreja muda tradicionalmente de posição, mas não desista da luta”. Então, eu tenho certeza que no momento em que começarmos a alcançar resultados concretos, aqueles que são contra mudarão de posição.