10 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: Carro antigo ou carro velho?

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Somos bombardeados por propaganda o dia todo e muitas delas são no mínimo tendenciosas, para não dizer enganosas. O mercado de carros usados, por exemplo, insiste em ofertar “seminovos” com 5 ou mais anos de uso, beirando os 100.000 km reais (se bem que o odômetro já foi fatalmente rebaixado para algo como 47.393 km “originais”). Qual a desvantagem em chamar os veículos de “usados em boas condições de uso”? Seminovo, a meu ver, é algo com menos de um ano de uso e baixa quilometragem, ainda na garantia, mas que não é mais zero quilometro. O resto é usado mesmo, qual é o problema? Seria mais honesto passar esta imagem do seu estoque ao seu potencial cliente.

Sem filosofar demais, outra confusão típica do meio é misturar carro antigo com carro velho. Um carro muito rodado, sem manutenção adequada, amassado e fosco é realmente um carro velho. Já um carro para ser considerado antigo tem que representar um modelo específico, com idade superior a 30 anos, mantendo todas as características originais e com manutenção perfeita, isto é, andando direitinho. Portanto, não é qualquer coisa que vemos rodando por aí.

Um carro antigo deve ser original até o limite, pois algumas coisas não dão para manter, seja porque se tornaram irrecuperáveis ou não estão mais em produção, ou mesmo itens tiveram que ser instalados em favor de segurança ou legislação, mas mesmo assim a originalidade deve ser mantida ao extremo. Geralmente os carros antigos são de colecionadores ou aficionados exigentes, que providenciam uma restauração completa tanto da carroceria quanto da parte mecânica, procurando detalhes em ferro-velho, desmanches e boquetas por aí afora até encontrar um determinado embleminha ou acessório especial. Alguns chegam a importar pneus em medidas aqui inexistentes só para deixar o carrinho com a mesma cara de quando nasceu.

Mas estes são colecionadores que tem talento, tempo e condições para manter seu hobby. Fiquei sabendo de um desses colecionadores, amigo meu, que um carro antigo com a pintura original não perfeita, porém em bom estado, vale mais do que um totalmente reformado com a nova pintura impecável. Isto por se levar a originalidade mais em consideração do que o estado de conservação. O Jornal do Brasil disse que os antigos são veteranos que vendem saúde.

Pessoas comuns também têm seus carros antigos muito bem conservados, mas não necessariamente em nível de coleção. E não precisam disso. Tem um senhor que sempre passa aqui defronte à fábrica com um Fusquinha da década de 60 com pintura bicolor e pneus faixa branca, perfeito. É puro capricho e dedicação. Outro circula por aí com um Chevette 78 impecável com rodas de magnésio (acessório original da época) e totalmente restaurado, lindo. São carros que viramos o pescoço para olhar. Vi muitos Opalas e Dodge Dart igualmente restaurados e circulando orgulhosamente pelas ruas, dignos representantes das glorias do passado. E seus donos se sentem também orgulhosos de suas relíquias, mesmo não participando de concursos de antigos ou de originalidade.

Em compensação, vejamos o outro lado da moeda. Tem uma infinidade de carros velhos rodando, ou melhor, capengando por aí, soltando fumaça e sem uma fiscalização eficiente que os retire de circulação. São verdadeiros perigos ambulantes pois não tem freio, estabilidade ou dirigibilidade. Soube de um caso noticiado em jornal que no Rio de Janeiro, em que um motorista entrevistado disse que usava um jogo de pneus mais novos só para passar pela vistoria e depois os trocava pelos velhos carecas, pois ainda dava para rodar mais um pouquinho...

Considerando um dado estatístico divulgado pela Prefeitura da cidade de S. Paulo de que um carro velho polui o equivalente a 50 veículos novos, deveríamos tomar mais cuidado com a idade e conservação da frota circulante. É fundamental que seja implementada o quanto antes a inspeção anual obrigatória, retirando de circulação a bagulhada que emporcalha nosso ar e nossas ruas e estradas, diferenciando-os dos demais veículos não apenas pela idade, mas pelo estado de conservação. Como acontece conosco, ser idoso não é sinal de ser inútil ou sem valor. Um carro idoso pode ainda prestar muitos bons serviços, nem que seja apenas para curtir, passear, desfilar e alegrar nossa vida. Qualquer máquina, bem mantida, dura mais.

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* Marcos Serra Negra Camerini é engenheiro mecânico formado pela Escola Politécnica da USP, pós-graduado em administração industrial e marketing e engenharia aeronáutica, com passagens como executivo na General Motors (GM) e Opel. Também é consultor de empresas e é diretor geral da Tryor Veículos Especiais Ltda. Seu site é www.marcoscamerini.com.br.