09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: O ‘nabio’


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Na década de 60, na minha juventude em Avaí, era comum passarmos o dia no rio Batalha pescando ou nadando. Nesta época, muitos pescadores possuíam seus barcos, comumente chamados de “botes”, que ficavam ancorados em vários locais do rio Batalha, presos a um cadeado.

Na Barra, por exemplo, ficavam os botes do Carlito, do Venâncio Soldado, do Zeca Venâncio, do Florindo Forte e do Léo, na ponte de pau, os do Dr. Júlio Delegado, Dito Lampião. Na ponte de ferro encontravam-se os botes do Albari e da Maria Capivara, e do pessoal de Bauru. Havia um respeito muito grande em relação aos botes, ninguém mexia no do outro, nem mesmo a molecada.

Foi nesta época que o Domingos Soldado resolveu fazer um bote e, como ele morava no centro da cidade defronte a praça, todo mundo acompanhava a sua construção, que, por sinal, era exagerada em suas medidas: nove metros de comprimento, quando o comum era cinco, madeira verde e não aparada, 37 quilos de parafusos e porcas e quase 100 quilos de piche para calafetá-lo.

Dentre os curiosos, eram várias as sugestões para nomear o bote. Uns diziam que era a “arca de Noé”, “transatlântico”, mas acabou por ser conhecido como “Nabio”; nome dado pelo Tonhão da Força e Luz, o qual tinha problemas de dicção e não falava navio, e sim, “nabio”.

Também eram muitas as perguntas dos curiosos ao Domingos Soldado: - Como você vai tocar este bote, de varejão ou de motor? Como irá transportá-lo até o rio? - e Domingos respondia calmamente: - Esperem que no dia vocês verão.

Tempos depois, chegou o grande dia de estréia do popular “Nabio”. Foi preciso 20 homens para colocá-lo em cima de um caminhão, e logo após seguiam a multidão até a barra do Jacutinga com o Batalha, onde a enorme embarcação seria lançada. E assim foi feito, com todos ajudando o “Nabio” entrou no rio, e para a surpresa de todos, inclusive a de Domingos Soldado, a embarcação simplesmente afundou e nunca mais voltou à tona.

Diante da surpresa, Domingos Soldado foi embora cabisbaixo, perplexo, sem falar com ninguém. Talvez a conclusão mais acertada do acontecido fosse a do Zé Alagoano (morador de rua de Avaí). Ele disse que o seu Domingos não construiu um “Nabio”, mas um submarino.

Sérgio Andrade Moreira é pescador e contador de histórias.