10 de julho de 2026
Nacional

Tenente diz que entregou jovens a traficantes para ‘dar um susto’

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Rio - “Queria só dar um susto. Nunca ia trocar a vida de três rapazes pela minha ‘moral’”. A afirmação é do tenente Vinícius Ghidetti, apontado como o mandante da entrega de três jovens do morro da Providência aos traficantes do morro da Mineira, no Rio. O tenente presta depoimento ontem ao juiz da 7.ª Vara Federal Criminal, Marcello Granado. O oficial e outros dez militares são acusados de triplo homicídio.

Os 11 militares fazem parte da tropa do Exército que ocupava o morro da Providência para fazer segurança das obras do projeto Cimento Social, do governo federal. Eles foram presos no último dia 15 e, segundo a polícia, confessaram ter levado, no dia anterior, os rapazes detidos no alto da favela a traficantes do morro da Mineira, rivais aos da Providência. “Meu intuito sempre foi liberá-los. Nunca ia desobedecer uma ordem do meu capitão. Fui formado na Academia Militar das Agulhas Negras. Mas queria só dar um susto, queria deixá-los com medo”, disse o Ghidetti ao juiz.

O tenente alegou que teve raiva dos rapazes porque foi hostilizado e quase foi agredido por um deles. Questionado pela promotora do Ministério Público Federal Patrícia Nuñez se ele sabia que estava agindo de forma errada ele admitiu que sim, porém, alegou que a idéia era somente deixar as vítimas em um lugar perigoso para que eles achassem que algo ruim iria acontecer. O encontro com os traficantes do morro da Mineira, segundo o tenente, foi inesperado. “Quando chegamos na Mineira foi um susto o encontro com traficantes. Foi um encontro fortuito”, afirmou o oficial.

Ghidetti afirmou que pediu aos traficantes do morro da Mineira que “apenas” dessem uma surra dos três jovens. Ele disse ter acreditado que, por ser militar, “iria impor respeito aos traficantes”. “Esperava sinceramente que não fosse ter esse desfecho. Espera que eles não fossem morrer. Falei inclusive (aos traficantes): ‘é só um susto’”, disse Ghidetti.

Ghidetti afirmou em seu depoimento que é do Espírito Santo e mora no Rio há cerca de um ano e meio. Declarou-se católico e chorou muito ao falar do filho de dois meses.

Deveriam prestar depoimento ainda ontem os soldados José Ricardo Rodrigues, Julio Almeida Ré e os sargentos Leandro Maia, Bruno de Fátima e Renato de Oliveira Alves. Os demais - soldados Rafael Cunha da Costa Sá, Sidney de Oliveira Barros, Fabiano Eloi dos Santos, Samuel de Souza Oliveira e Eduardo Pereira de Oliveira - prestam depoimento hoje.

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Líderes das milícias

Rio - O delegado Marcus Neves, da 35.º Delegacia, Campo Grande (zona oeste do Rio), apontou o deputado estadual Natalino Guimarães (DEM) e o vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho (PMDB), como os líderes do principal grupo miliciano do Rio. O delegado participou ontem de sessão da CPI da Assembléia Legislativa que investiga a atuação de milícias na Capital fluminense.

A CPI foi aberta após uma equipe do jornal “O Dia” ter sido, segundo a polícia, torturada por integrantes de uma milícia da favela do Batan, onde a equipe realizava reportagem.

Neves, cuja área de atuação concentra o maior número de milícias do Rio, apresentou uma lista com 27 nomes de supostos membros do grupo denominado Liga da Justiça. O líder, de acordo com o delegado, é o vereador Jerominho, que está preso desde o ano passado. Ele e o deputado Natalino, que são irmãos, respondem por processo na Justiça por formação de quadrilha, coação de pessoas à prática de crimes e de planejar assassinatos que não ocorreram. “Eles são a personificação da milícia que atua em Campo Grande”, disse o delegado.

O deputado Natalino Guimarães não participa da sessão. Os advogados dos dois acusados não foram localizados para comentar as declarações de Neves.

Segundo Neves, Guimarães e Jerominho chefiam um grupo que controla ilegalmente 90% da área de Campo Grande, um dos maiores bairros do Rio. Com atividades ilegais - como transporte alternativo, venda de gás e de pontos de TV a cabo -, o grupo lucra cerca de R$ 2 milhões mensalmente, de acordo com investigação da 35.ª DP.

Atualmente, a delegacia tem 11 inquéritos abertos para investigar crimes cometidos por supostos milicianos na zona oeste. Na sessão da CPI, o delegado disse que a milícia começou a tomar o controle de áreas da zona oeste há cerca de oito anos para expulsar traficantes de drogas.

Hoje, segundo ele, não há nenhuma área de Campo Grande em que há atuação do tráfico. “Eles começaram cobrando só pela segurança, mas perceberam o lucro fácil da atividade. Daí começaram a se expandir e explorar outros serviços ilegais”, disse o delegado-substituto da 35.ª DP, Eduardo Soares.

Aproximadamente 50% dos milicianos são funcionários públicos, principalmente policiais militares, civis e até membros das Forças Armadas, de acordo com informações apresentadas pelos delegados. “É um mal muito maior que o tráfico porque essas pessoas estão infiltradas no Poder Público, disse Neves.

O objetivo do presidente da CPI, deputado Marcelo Freixo (Psol), é apontar para a Secretaria da Segurança os principais envolvidos em grupos de milícia e soluções para combatê-los.