09 de julho de 2026
Internacional

Betancourt reencontra filhos e pede apoio para caso de reféns

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Bogotá - De um lado, abraços emocionados aos filhos; de outro, promessas de luta pela libertação de reféns em todo o mundo. Em seu primeiro dia de liberdade após seis anos de cativeiro, a ex-refém das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) Ingrid Betancourt, 46 anos, se dividiu ontem entre a maternidade e a política.

Sua face política teve o ponto alto no final da tarde, quando Ingrid disse em entrevista coletiva na Embaixada da França em Bogotá que o tema do acordo humanitário entre Farc e governo perdeu um pouco de lugar com o resgate, na quarta, dela e de mais 14 reféns.

Ingrid defendeu uma solução negociada para a questão e pediu pediu “todo o apoio internacional” para fazer com que “as Farc compreendam que a opção da guerra está acabada”.

Depois de ter afirmado que “ainda aspira à Presidência”, a ex-candidata colombiana não se opôs, quando indagada, à um eventual terceiro mandato do presidente Álvaro Uribe. “Se o povo quiser, por que não?”

“A reeleição (de Uribe em 2006) foi muito boa para a Colômbia. Isso não que dizer que (eu) concorde com tudo o que o presidente fez”, afirmara antes.

Já sobre uma possível candidatura própria, a franco-colombiana afirmou que essa é uma decisão que precisa de “reflexão” com sua família, em especial com seus filhos. Ela disse não saber do futuro. “Tinha me programado para passar mais quatro anos na selva. A liberdade chegou de surpresa, ainda estou anestesiada.”

Ingrid foi resgatada anteontem pelo Exército colombiano. A operação, ainda cercada de mistério, contou com soldados disfarçados de rebeldes que buscaram a ex-candidata à Presidência, três americanos e outros 11 colombianos na selva em um helicóptero militar que simulava ser de uma agência humanitária fictícia.

Anteontem, Ingrid estreou a liberdade com noite insone na casa da mãe, quando contou ao marido, Juan Carlos Lecompte, e a familiares as agruras do cativeiro. A seu pedido, tomou um café da manhã de laranjas e se reencontrou por volta das 8h, entre lágrimas, com os filhos Lorenzo, 19 anos, e Melanie, 22 anos, que chegaram da França. “O paraíso, o nirvana deve ser algo muito parecido com o que estou sentindo agora. Estes filhos são minha luz, minha lua, minhas estrelas. Por eles continuei com vontade de sair da selva, para voltar a vê-los”, disse.

Ela não esperou que Melanie e Lorenzo saíssem da aeronave após o pouso: subiu correndo as escadas do avião e teve uma reunião privada de 15 minutos.

Ao sair do avião, ainda abraçada aos dois, ela disse entre beijos que “agora vão ter de aturá-la, pois vai ficar grudada que nem chiclete”.

Mas Ingrid não perdeu a oportunidade apresentada pelos holofotes mundiais durante o dia. Ingrid convidou os presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, do Equador, Rafael Correa, e da Argentina, Cristina Kirchner, a ajudar a fortalecer a democracia na Colômbia - e “não a guerrilha”.

As atenções chegavam de todas as partes. Dirigentes políticos italianos apoiaram a ex-refém como candidata ao Nobel da Paz, e papa Bento 16 disse que a receberá para uma audiência, talvez na próxima semana.

Contos da selva

Ingrid partiu para a França ontem à noite. Sobre os anos de cativeiro, ela disse que foi tratada “como um cachorro”. “Não era tratamento nem para um animal. Só havia crueldade, arbitrariedade e maldade.”

O cabo do Exército colombiano e ex-refém William Pérez, que foi resgatado ao lado de Ingrid, contou que precisou usar conhecimentos de enfermagem para salvar a vida da colega. Ele disse que ela “sumiu’’ de depressão, que não podia mover os braços e quase perdeu a lucidez. “Estava muito debilitada e foi preciso lhe dar soro e alimentá-la com cuidado, porque vomitava tudo que comia.”

Ontem, para o marido, “ela está muito bem, generosa de espírito e lúcida. O corpo tem algumas seqüelas, mas nada grave. Sua alma está fortalecida”.

Mas os relatos dos ex-reféns mostram uma vida de espera e sofrimento. Refeições eram limitadas a arroz e feijão, às vezes macarrão ou lentilhas. Banhos eram feitos em rios e, quando não estavam acorrentados a árvores, os seqüestrados eram forçados a caminhar por longas distâncias.

A situação piorou no último ano, com a aproximação de forças do governo, que tornou os recursos difíceis de obter.

Em um dia comum, eles seriam acordados às 5h30. Tomariam café e comeriam bolo de milho; escutariam o rádio e fariam exercícios por uma hora. Dormiriam às 18h. Como escreveu Ingrid à mãe durante o cativeiro: “A vida aqui não é vida. É uma total perda de tempo.”