07 de julho de 2026
Saúde

Toques e retoques

Consultoria: Daniela Hueb
| Tempo de leitura: 4 min

Doenças inflamatórias e alimentação

Prezado leitor,

Você sabe o que é inflamação e qual a sua relação com os alimentos? Novas pesquisas mostram que ingerir certos tipos de alimentos pode causar inflamação. Chegar à sua raiz com a alimentação adequada é o segredo para amenizá-la.

O que é inflamação?

Inflamação significa “queimar” ou “fogo”. Em medicina, é um processo de defesa do organismo frente a qualquer agente agressor, como irritação, toxinas e moléculas estranhas, além de infecções. Seus sinais clássicos são dor, calor, inchaço e vermelhidão, da mesma forma como acontece quando estamos com uma simples dor de garganta ou um machucado inflamado. Isso é bom, pois esse processo combate os agressores de todos os tipos. Nas doenças inflamatórias crônicas, como exemplo a artrite, além daqueles sinais clássicos, pode ainda ocorrer perda de função.

Prejuízos

A inflamação é essencial à vida e convivemos com ela constantemente. Assim que ocorre uma agressão, ela dispara o alarme para que o sistema imunológico entre em ação. Um exemplo interessante de sua ação é o simples ato de sentar por tempo muito numa mesma posição sobre um dos glúteos. Podemos perceber que, num determinado momento, nos levantamos para mudar de posição e damos uma discreta coçadinha. Pois é, essa coçadinha é devido à ação do sistema imunológico tentando combater uma agressão, no caso o trauma da sentada sobre um dos glúteos. Ao mudarmos de posição, notamos que os glúteos estão doloridos, formigados, quentes e avermelhados. É a inflamação do tipo aguda em ação.

Ela torna-se prejudicial quando começa a se cronificar, caracterizando-se por agressões repetitivas em determinados órgãos. Quando esta cronificação ocorre no coração temos as doenças cardíacas; no cérebro, a doença de Alzheimer; nas articulações, as artrites; nos olhos, a cegueira; no pâncreas, o diabetes; e nas células de gordura, a obesidade. Por comumente não se manifestarem sintomas iniciais aparentes, podemos dizer que a inflamação é uma assassina silenciosa.

Os icosanóides

Os icosanóides são agentes da inflamação e funcionam como uma cola biológica que mantêm o corpo humano unido. Eles são um grupo de aproximadamente 100 substâncias poderosas semelhantes a hormônios (por isso são considerados mensageiros micro-hormonais), com a função de controlar praticamente todas as ações fisiológicas do organismo. Alguns são conhecidos pelos seus famosos pseudônimos, como as prostaglandinas, as prostaciclinas, o ácido araquidônico e os leucotrienes. Não há um exame específico para detectá-los porque eles são fabricados no interior das células. Assim que produzidos, fazem sua função e desaparecem rapidamente.

Eles se caracterizam por duas linhagens: série 1 (do bem) e série 2 (do mal). As ações da série 1 nos deixam mais saudáveis por provocar vasodilação, menos inflamação e dor e mais imunidade, resistência e fluxo de oxigênio. As ações da série 2 nos deixam mais suscetíveis a doenças por provocar vasoconstrição, mais inflamação e dor e menor imunidade, resistência e fluxo de oxigênio.

Quando há o predomínio das ações da série 1, estamos com os cabelos mais volumosos e brilhantes, a pele mais úmida e robusta, o sono mais profundo e a resistência aumentada. Quando há predomínio das ações da série 2, nossos cabelos estão sem volume e brilho, a pele está seca e flácida, o sono está deficiente e há fraqueza corporal generalizada. O importante é mantê-las em equilíbrio com predominância das ações da série 1, porém não menosprezando a importância das ações da série 2.

Os efeitos da alimentação

Não são necessários medicamentos para intensificar as ações da série 1. Por meio da alimentação basta consumirmos alimentos ricos em proteínas, como carnes magras (vermelhas ou brancas) e peixes (proteínas e ômega 3), além de claras de ovos e queijos magros. Ainda, de gorduras consideradas saudáveis (as insaturadas), como o azeite de oliva extra-virgem e azeitonas; das oleaginosas (nozes, castanhas e amêndoas) e de frutas, verduras e legumes.

As ações da série 2 são mais facilmente intensificadas em relação às da série 1, pois para que isso ocorra são necessários controlar cinco fatores: três independem da dieta (envelhecimento, estresse e doença) e dois dependem da dieta (ingestão de carboidratos refinados e de gorduras trans).

Os fatores independentes da dieta são difíceis de controlar. O envelhecimento é o único inevitável, porém é passível de retardo. Para controlar o estresse nada que uma ioga, atividade física e sessões de relaxamento, desconsiderando outras ações, não resolvam. Já as doenças podem ser evitadas devido aos cuidados básicos de higiene, entre inúmeras outras ações. Agora o fator dietético está sob seu total controle, tanto que para as pessoas portadoras de doenças inflamatórias crônicas e para as que desejam preveni-las, o papel da escolha dos alimentos é fundamental.

Observa-se que a alimentação habitual do brasileiro é rica em carboidratos refinados (arroz branco, macarrão, pão francês, leite, farinha, doces e açúcares) e pobre em proteínas e gorduras saudáveis. Com este padrão alimentar há o predomínio das ações da série 2 dos icosanóides, daí a maior ocorrência de doenças inflamatórias (artrite, eczemas de pele, psoríase, doenças cardíacas, diabetes e obesidade, entre outras).

A inflamação é essencial à nossa sobrevivência, mas como esclarecido nas linhas anteriores, ela pode tornar-se nossa inimiga mortal. Alguns cuidados alimentares podem mantê-la sob controle, e só depende de você ficar atento ao que consome, pois o preço pode ser a saúde, ou a morte.

Um grande abraço e até o próximo domingo.

Daniela Hueb

Médica, CRM-SP 96.027

e-mail:danielahueb@jcnet.com.br