07 de julho de 2026
Ser

No ritmo da vida

Dayran Carvalho
| Tempo de leitura: 11 min

Você já pensou em representar suas vivências cotidianas por meio de movimentos corporais? E, ainda, praticar uma auto-observação por meio deste processo? Para alguns pode soar estranho, mas esta é a proposta da psicóloga paulistana Lilly Hastings, de 38 anos, que garante que a receita funciona. Ela vêm a Bauru nos dias 19 e 20 de julho apresentar o trabalho “Movimentos do Self”, método de autoconhecimento em que cinco ritmos de dança são utilizados para recriar situações gerais de nossas vidas.

Esse trabalho é resultado das andanças de Lilly, que desde os 16 anos estuda e pratica diferentes formas de aprimoramento pessoa pelo mundo. Foi movida pelo ideal de investigar os princípios e as leis que regem o universo e o ser humano, que ela viajou pelos cinco continentes. Escócia, Estados Unidos e Índia estão entre alguns países visitados. “Já viajei bastante, mas ainda tenho muito o que conhecer”, diz ela.

Lilly, que é life coach, desenvolveu os “Movimentos do Self” há mais de 10 anos, trabalho que realiza paralelo às aulas de yoga. Na entrevista concedida ao Jornal da Cidade por telefone, a terapeuta conta um pouco sobre tudo isso.

Jornal da Cidade - Desde os 16 anos você pesquisa e pratica diferentes formas de aprimoramento pessoal. Ao passar por essa busca e inquietação você expande seu trabalho para outras pessoas?

Lilly Hastings - Claro. E eu junto com elas. Porque o caminho do terapeuta pode ser resumido da seguinte maneira: ele se cura curando aos outros. Nenhuma pessoa escolhe ser terapeuta ou psicólogo se não tem uma motivação pessoal. Para ser terapeuta é preciso ter esta paixão pelo trabalho e eu acredito que esta paixão é muito expressiva quando nos toca pessoalmente.

JC - Você é formada em psicologia, atua como life coach e é professora de yoga. Essas atividades se interrelacionam?

Lilly - O yoga e o life coaching podem se combinar perfeitamente. Alguns de meus clientes fazem os dois juntos. Os dois se complementam da seguinte forma: o yoga abre espaço no corpo físico, emocional e no mental para que a pessoa se destrave, fique mais solta, tenha uma respiração melhor e fique mais consciente de si mesma, enfim, se conheça melhor. Depois de tudo isso, vem aquele questionamento ‘do que vou fazer com isso?’ A pessoa já se conhece melhor, já aprendeu a soltar suas tensões e se sente mais alegre, forte e saudável. Então, normalmente, ela quer usar toda esta energia para fazer alguma coisa; para deixar um legado nessa Terra e enriquecer a vida. O yoga seria mais interno e o life coaching, que é processo, ajuda a pessoa a ir para o mundo fazer o que ela tem que fazer.

JC – Como os Movimentos do Self se encaixam neste processo todo?

Lilly - Os Movimentos do Self são um casamento entre psicologia, yoga e o trabalho da shaman norte-americana Gabrielle Roth. Estes movimentos são formados por cinco ritmos que representam as nossas vivências. Para quem não conhece, shaman é uma pessoa que também existe para curar o corpo, a alma e o espírito. O trabalho shamânico vai ter uma atuação profunda, também como o yoga. O shamanismo tem um olhar profundo, pois ele quer tratar todas as dimensões do ser humano.

JC - O coach entra neste processo?

Lilly - Não necessariamente. Na verdade, os cinco ritmos falam muito sobre como é a vida. Qual é a tendência de uma idéia e quais experiências você vai ter até seu sonho se tornar real. Neste sentido, o Self dá um pouco as mãos para o coaching sim, porque o trabalho da Gabrielle ensina um pouco como enfrentar e compreender a vida e como ir atrás do que você quer, sem desistir. Mas não é o coaching em si. Quando eu elaborei este trabalho, os Movimentos do Self, há mais de 10 anos, eu não conhecia nada de coaching.

JC - Que ritmos são estes?

Lilly – São o flowing, o stacatto, o chaos, o lyrical e o stillness, respectivamente. O primeiro ritmo, o flowing, é o momento em que você vai fazer todos os movimentos que quiser, mas com características redondas. É um ritmo ligado aos princípios femininos. Ele está relacionado com o nascimento das idéias. É hora de deixar a mente fluir – é o início das coisas. Então, uma dada hora você tem que perceber que já imaginou tudo o que quer e vai para o segundo movimento, que é o stacatto, ritmo com princípios masculinos. É a hora de botar a mão na massa. A música muda, tudo muda. A situação pode ser exemplificada da seguinte maneira: Quer uma casa? Vai comprar o tijolo. Não tem dinheiro? Vai trabalhar pra juntar. Depois, vai ligar para o pedreiro, e assim por diante. Mudou completamente a tônica e os movimentos são retos e precisos. As pessoas são instruídas a se movimentarem como quiserem, porém seguindo um padrão de princípios masculinos.

JC – E se algo sair fora do planejado?

Lilly – É aí que entra o terceiro movimento, o chaos. É a hora do caos mesmo. A pessoa foi lá, comprou o terreno, ligou para o pedreiro, preparou a planta da casa e algumas coisas saíram fora do esperado. O chaos significa que a energia feminina acasalou com a energia masculina e nasceu um bebê. E esse bebê não é exatamente o imaginado no flowing e o planejado no stacatto, porque a vida não é assim. A vida não é linear. As coisas não vão acontecer exatamente como você quer, porque o seu projeto tomou vida própria, e nesta hora, ele vai trazer certas características com ele mesmo que você não teve acesso. Para algumas pessoas o caos é tão frustrante que ela fala: “Derruba a casa toda que eu não quero”. Se não for exatamente como elas planejaram elas desistem do projeto.

JC – Esses ritmos também estão relacionados a processos internos?

Lilly – Com certeza. Nem sempre eles se relacionam aos projetos externos como a construção de uma casa, às vezes eles estão presentes nos relacionamentos que nós temos. Às vezes, você quer que a pessoa tenha um comportamento e ela age diferente. Você pode enxergar aquele comportamento do caos que veio fazer você evoluir, além de desenvolver tolerância e adaptabilidade. Eu acredito que o caos está lá para fazer com que no fundo você seja mais feliz; para soltar uma amarra qualquer que você está cismando em manter e que sem ela você será um ser humano muito mais pleno. Ele existe para proporcionar crescimento e expansão pessoal.

JC – E como são os movimentos nesse ritmo?

Lilly – São movimentos que misturam o redondo e o reto. A pessoa sempre (em todos os movimentos) se movimenta como quiser, mas deve manter-se voltada ao chão – ter a sensação de que tem um chão. Aqui ela pula, grita, ‘solta os bichos’, porque é um ritmo que pode ter muita tristeza, pois as nossas expectativas não foram completamente atendidas.

JC – O que acontece depois?

Lilly – Como todo ritmo passa, o chaos também passa. Quando a pessoa chega no quarto movimento que é o lyrical, um ritmo mais solto, suave, aéreo, gostoso, ela está no momento em que a tempestade passou; em que as pessoas conseguiram se entender; a casa ficou pronta e ficou linda; a situação foi resolvida. Os movimentos são para cima, de pulos, alegria. É um ritmo muito saboroso, pois é a hora da celebração da conquista. Percebe que esta conquista só vem depois do chaos? Não existe flowing, stacatto e lyrical direto. O mesmo acontece na vida.

JC – Como é o último ritmo?

Lilly – Naturalmente, depois de toda a festa e alegria do lyrical, os movimentos vão começar a diminuir um pouco e ficar mais internos – é quando vem a quietude do stillness. Mas sempre com uma enorme alegria, afinal, a pessoa passou pela celebração do lyrical, mas ela não vai ficar sempre naquela euforia. Ela está quietinha, mas lá dentro tem uma vida pulsando de um processo concluído. E, na semente desta quietude, vai nascer um novo flowing. A vida inteira é assim. Às vezes, passamos por estes movimentos várias vezes ao dia, ou estamos em movimentos diferentes nas áreas da nossa vida. Os Movimentos do Self representam todas as fases de um processo criativo.

JC – Podemos afirmar que o self é uma prática espiritual?

Lilly – Com certeza. É uma oportunidade de cada um olhar para dentro de si, ver suas tendências, o que não está indo bem e o que conduz ao silêncio. Acredito que um trabalho ou prática que conduzem ao silêncio, onde você vai ter suas experiências e perceber algumas coisas, seja a dimensão mais fina do seu ser. É o que nós chamamos de espiritual se apresentando para você.

JC – Pessoas de qualquer religião podem praticar os Movimentos do Self ou é preciso se distanciar de alguns dogmas?

Lilly – Não há restrição quanto a isso. Religiosos e ateus podem participar, afinal, estamos falando sobre o ser humano. Pode também ser uma oportunidade para que alguns conceitos sejam questionados. É o momento dela se auto-avaliar.

JC – Também é possível tomar os movimentos como um momento de questionamento?

Lilly – Eu diria que de auto-investigação. Ela é expressiva em todos os movimentos. A pessoa vai se observar em cada ritmo, ao invés de se questionar. São momentos em que ela recebe informações sobre si mesma. É um processo de auto-conhecimento, e não de questionamento.

JC – Qual é o reflexo da prática dos Movimentos do Self na vida de quem pratica? Que contribuições este processo traz?

Lilly – Acredito que os resultados são muito individuais, mas posso falar da minha experiência. Eu consigo ler melhor as situações que chegam na minha vida; consigo entender quando as coisas estão no caos e que é hora de respirar fundo, ter paciência, confiança e não desistir das coisas; posso, também, entender quando estou passando pelo quarto movimento e me dar ao direito de ficar alegre, celebrar as coisas e sorrir; consigo perceber quando chega a quietude, que é o momento de mergulhar no silêncio e parar de questionar tudo - experimentar um pouco esta delícia que é o silêncio. Cada vez mais desenvolvemos habilidades de ler os ritmos que estão presentes na nossa vida. Você perceberá que seu trabalho pode estar no stacatto, a família no lyrical, o relacionamento no chaos, enfim, várias situações da vida em movimentos diferentes. Vários ritmos acontecem ao mesmo tempo na vida.

JC – Durante a aula os alunos chegam a imitar os professores?

Lilly – Não. Ninguém imita ninguém. É muito importante a pessoa estar ali percebendo como ela funciona em cada ritmo. Se ela não conseguir se movimentar direito em algum deles, pode ser que isso mostre que ela tem uma dificuldade com aquele ritmo na própria vida, no que representa no cotidiano. A proposta é a pessoa se expressar como ela é.

JC – Quanto tempo dura cada aula?

Lilly – Em workshops como o que eu realizarei em Bauru, as orientações duram cerca de cinco horas. Mas, além dos movimentos, eu proponho outras atividades. Conversa, tarefas, apostilas de estudo e, é claro, um intervalinho estão previstos na programação. Depois tem todo um aquecimento. Agora, quando dou aulas semanais em São Paulo, normalmente, elas duram uma hora e meia.

JC – Há uma periodicidade indicada para as aulas?

Lilly – No máximo uma vez por semana, porque o processo já é muito intenso. Normalmente, se a prática for feita uma vez por mês, com qualidade, já é superprodutivo.

JC – Com a realização destes workshops, você acredita estar em um momento de lançar sementes?

Lilly – Acho que sim. Tenho buscado apresentar este trabalho, dar uma primeira mostra às pessoas como se fosse um aperitivo e espero que elas consigam tirar coisas boas disso e aplicá-lo em suas vidas. Espero que funcione como uma ajuda, deixando os participantes mais felizes, centrados e confiantes nos processos da vida. É importante conhecermos um pouco como são as leis que regem a vida para termos mais serenidade diante dos acontecimentos.

• Serviço

Movimentos do Self. Workshop com Lilly Hastings. Dias 19 e 20 de julho, na Casa do Yoga, em Bauru. No primeiro dia (sábado), as aulas vão das 15h às 19h30, e no domingo, das 10h às 12h. Inscrição: R$ 100,00 (até o próximo dia 12) e R$ 120,00 (de 12 a 19). Informações na Casa do Yoga, que fica na rua Júlio Maringoni, 18-30, no Jardim Nasrala, ou pelo telefone (14) 3234-7402.