08 de julho de 2026
Geral

Falando bem, que mal tem?

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

“Não andarás como mexeriqueiro entre o teu povo”, já recomendava Moisés aos israelitas, em seu livro do Levítico, escrito cerca de 3,2 mil anos atrás. Embora condenada por diferentes religiões, a fofoca se mostra bastante viva em nossa sociedade.

Basta uma rápida visita a um local público - a praça Rui Barbosa, no Centro de Bauru, por exemplo - para se constatar o poder que essa prática possui entre as pessoas. Mesmo aqueles que dizem condenar a fofoca admitem já ter lançado mão dela, uma ou outra vez na vida.

“A fofoca é um grande mal, que provoca separações de casais e brigas de famílias. É claro que tudo depende da maneira como falamos. Eu, por exemplo, já comentei sobre a vida alheia, mas nunca sobre coisas sérias, que pudessem vir a prejudicar a pessoa”, garante o aposentado Osvaldo Santos Souza, 70 anos.

Opinião parecida tem o aposentado Durval Moura, 80 anos. “Fofoca todo mundo faz, inclusive eu. A grande questão é não prejudicar os outros”, pensa. Diariamente, ele costuma se reunir com um grupo de idosos no Centro de Bauru para jogar conversa fora.

“A ‘fofoca’ que fazíamos antes de você chegar (o repórter) era comentar esse absurdo que o presidente da República (Luiz Inácio Lula da Silva) vem dizendo por aí, de que os pobres estão comendo mais. Isso é uma conversa que não prejudica ninguém, é uma coisa pública. O problema não está em se falar da vida alheia, mas sim em se comentar coisas que não são verdadeiras”, assegura.

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Celebridades

Não é só nas conversinhas de pé-de-ouvido que a fofoca manifesta a sua força. O jornalismo de celebridades (com mexericos sobre a intimidade de cantores, atores e figuras tarimbadas da TV) é um dos segmentos da imprensa que mais têm crescido nos últimos tempos, seja em número de publicações ou em quantidade de profissionais contratados.

Para o colunista Flávio Pedroso, titular há 11 anos da coluna “Conexão Biz”, do Jornal da Cidade, esse processo é reflexo de uma curiosidade natural das pessoas em relação à vida de seus ídolos.

“Os leitores sentem a necessidade de receber informações sobre a intimidade dos famosos. Isso funciona, para eles, como uma espécie de mecanismo de compensação. Quando vêem que algo de ruim se sucedeu com o artista, pelo simples fato dele ser famoso, as pessoas pensam: ‘Graças a Deus, isso nunca irá acontecer comigo, pois sou um sujeito comum’”, acredita.

Pedroso discorda da opinião corrente de que esse tipo de jornalismo seja frívolo. “Na minha visão, esse segmento é importante, pois serve como válvula de escape para muita gente”, afirma. O colunista também considera errônea a crítica feita aos “fofoqueiros” da mídia, tidos por muitos como invasores da privacidade alheia.

“Quando você se torna famoso, não tem como dizer que sua intimidade foi tolhida. Sua privacidade passa a pertencer ao mundo”, avalia Pedroso, que atua há mais de 50 anos no ramo das fofocas midiáticas, ora no rádio e na televisão, ora no meio impresso.