Cabrália Paulista – Num momento em que a busca por novas formas de geração de energia é cada vez mais intensa, a Escola Técnica Estadual (Etec) “Astor de Mattos Carvalho”, de Cabrália Paulista (45 quilômetros de Bauru), trabalha em um projeto que, a princípio, gera estranheza: produzir energia com fezes.
A produção, feita por meio de um equipamento chamado biodigestor, já mostra resultados positivos, apesar de ainda estar em fase de testes. A energia produzida poderá ser aplicada em equipamentos movidos a energia elétrica ou mesmo utilizada como gás em fogões. O resíduo resultante do processo também é bem aproveitado.
“A queima do metano, gás originado no processo, ativará um gerador (por meio de uma célula de hidrogênio) que alimentá máquinas e aparelhos que necessitam de energia elétrica”, explica o biólogo e professor da Etec José Joanitti. “O gás também poderá ser levado por tubulações até os botijões de gás de cozinha”, completa. A expectativa é que sejam produzidos cerca de dez botijões de gás por dia.
Neste momento, o biodigestor está em fase de enchimento. Sua capacidade é de 250 milímetros cúbicos. Enquanto isso, o gás carbônico vai sendo liberado para deixar só o metano. Por meio da queima deste gás é que se ativará o gerador de energia elétrica. Inicialmente, a energia proveniente será utilizada na iluminação dos aviários, dos alojamentos de estudantes da Etec e no refeitório local.
O diretor da Etec, Lourenço Magnoni Júnior, informa que o processo de queima do metano pode se iniciar ainda nesta semana. A inauguração do projeto, ou seja, a ocasião em que a energia começará a ser produzida (também para testes), está prevista para o final do mês que vem.
Magnoni Júnior informa ainda que são feitas análises microbiológicas periódicas do material armazenado no bexigão, termo mais popular para o biodigestor, mas não recomendado por esepcialistas, e da qualidade do metano proveniente. Isso acontece nos laborátórios da unidade de São Carlos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Instrumentação Agropecuária), uma das parceiras no projeto. Além disso, a Etec de Cabrália também possui um laboratório em fase de estruturação.
“Hoje, não podemos pensar em produção sem nos preocuparmos com as questões ambientais”, frisa Joanitti . “Pode ser a energia do futuro”, enfatiza. Segundo ele, a expectativa é que esta fonte de energia limpa seja viável e possa ser expandida para várias partes do mundo, afinal, as questões relacionadas ao meio ambiente são de responsabilidade global.
Magnoni Júnior atenta para o fato de que, apesar de estarem todos otimistas, trata-se de um projeto piloto que envolve tanto o estudo dos resultados do processo, quanto a viabilidade econômica e outras variáveis. Ele afirma que, até o momento, cerca de 50% do projeto foi concluído.
Quando questionado sobre quais quesitos ainda faltavam ser avaliados, ele apontou a distribuição da energia, de fato, sua possibilidade de expansão e a viabilidade econômica.
“Os 50% concluídos estão relacionados à construção do biodigestor, ao início de sua operação, ao resultados satisfatórios dos testes realizados no material e no gás e aos bons resultados da aplicação do resíduo resultante do processo.
A proposta do biodigestor integra a Rede Nacional de Bioenergia (etanol, biodiesesl, biomassa, biogás, entre outros), que está sendo estruturada pela Embrapa com apoio dos Ministérios da Ciência e Tecnologia, Minas e Energia e Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Itaipu Binacional e Petrobrás. O projeto é desenvolvido também com a parceria da Firestone Building Products America & Caribbean, Prefeitura de Cabrália Paulista, Ecosys/Bauru e tem sido referência no Brasil e no exterior.
Visita internacional
No último dia 24, a Escola Técnica Estadual (Etec) Astor de Mattos Carvalho, de Cabrália Paulista, foi visitada pela delegação internacional composta pelos norte-americanos Eric Garzon e Mauro Vilchers, diretores mundiais da empresa multinacional Bridgestone/Firestone e por empresários representantes da multinacional no Brasil, Chile, Peru e República Dominicana.
Os visitantes receberam informações para avaliar a proposta e o potencial do biodigestor e conheceram as instalações. O diretor da unidade, Lourenço Magnoni Júnior, afirmou que a estrutura foi muito elogiada, o que torna as expectativas ainda mais positivas.
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O que é este biodigestor?
O biodigestor é uma espécie de “bexigão” revestido com borracha especial produzida pela Firestone. Dentro dele, ocorre um processo de fermentação e a transformação de fezes em biogás. A Escola Técnica Estadual (Etec) Astor de Mattos Carvalho, de Cabrália Paulista, utiliza fezes humanas e suínas no processo. Mas, o diretor da unidade Lourenço Magnoni Júnior informa que há possibilidades de, futuramente, utilizar fezes de outros animais como matéria prima.
As fezes utilizadas são provenientes da descarga dos alojamentos dos alunos da Etec e de uma criação de suínos. Os dejetos são levados por uma tubulação até o biodigestor, onde passarão por um processo de digestão anaeróbia (sem a presença de ar), produzindo gases como metano e carbônico. Então, é necessário expelir o gás carbônico presente para que o metano predomine. É com a queima deste gás que será possível movimentar geradores de energia.
O biólogo e professor da Etec José Joanitti explica que para que as reações químicas aconteçam com as fezes humanas e suínas, o projeto tem utilizado no processo também fezes bovinas, pois delas provêm as bactérias que estão sendo utilizadas para digerir a matéria orgânica das duas matérias-primas.
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Resíduo vira adubo
Um dos pontos positivos constatados na pesquisa, até então, é a utilização do resíduo resultante do processo na adubação de plantações. Trata-se de um biofertilizante. “Isso comprova que a pesquisa aponta para uma fonte de energia absolutamente limpa”, fala Lourenço Magnoni Júnior, diretor da Escola Técnica Estadual (Etec) Astor de Mattos Carvalho, de Cabrália Paulista.
Segundo Magnoni Júnior, os testes periódicos feitos pela Embrapa e pela Etec apontam que os índices de coliformes fecais presentes no biofertizante são menores que os da água de muitas cidades.
O biólogo e professor da Etec José Joanitti acredita que futuramente esta tecnologia possa ser aplicada, inclusive, na irrigação de hortas.
O biofertilizante está sendo testado na plantação de alguns pés de café da própria Etec. O diretor conta que separaram alguns pés para serem regados com o resíduo da ‘nova tecnologia’ e outros com adubos tradicionais para que se possa traçar um comparativo.
“O resultado foi melhor que o esperado. Além de funcionar, o biofertizante faz com que as mudas cresçam mais rápido e fiquem mais bonitas”, diz. O Jornal da Cidade foi ao local e comprovou a afirmação.
Magnoni Júnior destaca que entre os benefícios que a Etec pode ter com uso do biofertilizante está a redução dos gastos com a compra de adubos convencionais.