08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

É mesmo?


| Tempo de leitura: 3 min

É mesmo verdade que na alta temporada de verão as blitze estarão parando todos os motoristas que transladam das praias para os hotéis, ao final de um maravilhoso dia de mares e quiosques? Quando digo todos, falo de famílias que trabalham o ano inteiro... Por quinze dias, ou por vezes uma semana, de sonho litorâneo. Falo de nossos irmãos latinos que viajam centenas ou milhares de quilômetros pra comer camarão, beber cerveja e caipirinha ao céu e ao sol de nossa linda Mãe gentil, com o bumbum salgado e os pés atolados em deliciosas areias...

Vamos fazer regressão? Aquela que se faz em consultórios de psicanálise, mas essa é de graça e pode passar de uma hora: Quantos de nós não teríamos passado de um óvulo descartado em um absorvente, ou um espermatozóide perdido num ralo de banheiro, se nossos pais não tivessem se encontrado numa areia, num barzinho de cantinho e violão, num forró, numa micareta, num carnaval, numa balada? Quantos desses nossos pais beberam somente água mineral e suco de laranja? E dos que não beberam somente água mineral e suco de laranja, quantos não dirigiram ao voltar para casa?... Meu amigo, se seus pais se conheceram numa areia, ou num barzinho de cantinho e violão, ou num forró, ou numa micareta, ou num carnaval, ou numa balada; não beberam somente água mineral ou suco de laranja e dirigiram ao voltar pra casa; me desculpe, mas o resultado da regressão proposta é que realmente você começou a vida muito mal: Você é filho de um assassino e uma cúmplice (ou vice-versa).

Antes de mudar o rumo da conversa, o quê aconteceu com os motoristas que foram multados por não portarem o kit de primeiros socorros? Tiveram realmente que pagar as multas? Se tiveram, foram restituídos e indenizados por terem sido lesados pelo Estado com tanta baboseira? Pobre bodes expiatórios... Hoje, poucos anos depois, sabemos que os primeiros socorros devem focar o não agravamento da situação do acidentado e que nenhum de nós; salvo possua, no mínimo, curso técnico de enfermagem, deve encostar uma tesoura em um ferido. É... nós, brasileiros, aprendemos rápido. Tão rápido quanto mudam os focos de interesse de nossos ilibados eleitos.

Mudando o rumo da conversa: conheço pouco da História, mas tenho vivido intensamente a história das comunidades com as quais convivo. Conviver é participar, interagir, colaborar, prestar serviços, ganhar o sustento; respeitar e ser respeitado. Respeitar a vida e não ser o instrumento da morte: ela virá para todos nós, mas não por nenhum de nós, tocado de indiferença, e de falta de amor próprio, e de falta de amor ao próximo.

Do pouco que conheço da História, noto uma intersecção na forma de se conduzir os povos: A incompetência, falta de infra-estrutura, corrupção, desonestidade, fraqueza, o moralismo hipócrita e a ignorância estampada sempre submetem as comunidades a formatos radicais, sufocando-lhes o perfil, a felicidade e a paz.

Não estou aqui para defender os que bebem e saem às pistas causando mortes e tristezas. Todas as ditaduras são legais sob a ótica de seus tiranos, vez que são criadas leis maquiando-as de legalidade. Não acredito, e isto é pessoal, em democracia onde toda uma nação é submetida à intolerância absoluta, ao mesmo tempo em que fatos ediondos são banalizados e tolerados à plena luz do dia.

Permissivas. Nossas leis são permissivas. Não só para os que traficam, e matam, e estupram; não só para os que falsificam medicamentos e ficam milionários mais e mais a cada expiro de quem pensa que está sendo medicado, mas mais para os que deveriam garantir-nos a educação, a dignidade e a vigilância serena e eficaz das interações sociais... Em nome do nosso próximo voto, amém.

Cadê o Estado? Eu sou filho deste solo, Mãe Gentil. Dá pra ser um pouco menos gentil com quem realmente me lesa e a meus irmãos? Mãe Gentil, quem são meus irmãos?

Mãe Gentil, o Estado é mesmo meu pai?

Tem certeza?

Marco José Rais Barbosa - Pês - RG: 12.327.499