Tudo muda o tempo todo, escreveu Lulu Santos, filosofando como Henri Bergson. Tudo muda o tempo todo... menos o Brasil. Não está na hora do país pegar carona nas grandes transformações ocorridas no planeta e se espelhar em países que saíram do fundo do poço e se desenvolveram em poucas décadas? Não em Cuba, na Venezuela ou União Soviética como fazem alguns intelectuais. Para variar, por que não na Espanha? Uma nação sufocada pela ditadura Franco, empobrecida durante a segunda guerra, e quando voltou ao regime democrático optou pela monarquia tendo como rei Juan Carlos. Aquele que fazendo a defesa do primeiro ministro de seu país, disse: cala a boca, Chavez!
Porque não aproveitar a dramática crise de dimensão intelectual, moral, espiritual e econômica vivida pela humanidade e virar a mesa? Afinal, uma revolução cultural desse tamanho aconteceu poucas vezes no decorrer da história. Para ser mais precisa quatro são os momentos marcantes: a era neolítica com o aparecimento da escrita, da agricultura, da cerâmica e da indústria têxtil; o início do cristianismo colocando um fim no império romano é o segundo; a queda de Constantinopla dando início ao renascimento, aos grandes descobrimentos e a invenção da imprensa é o seguinte; e por último a contemporaneidade.
Da mesma forma que nos períodos anteriores, as mudanças de hoje são amplas e com várias transições importantes ocorrendo simultaneamente, em um tempo acelerado. Os filósofos, sociólogos e historiadores examinaram as transformações em curso, baseados em estudos sobre ascensão/queda das civilizações, comparando a antiga noção de ritmo universal que resulta em padrões culturais flutuantes e no ideal de transições harmoniosas retratado em textos orientais e ocidentais, bem como na concepção marxista da história conhecida como materialismo dialético. Segundo Marx, a raiz da evolução social não se situava em novas idéias, mas nos fatos econômicos e tecnológicos, os quais proporcionariam a emancipação humana. Ele refletia o pensamento moderno onde o lócus da felicidade e o fim dos sofrimentos estava no futuro, como no cristianismo e islamismo. A postura marxista está baseada na noção hegeliana de mudança rítmica recorrente, não diferindo dos modelos do I Ching, acredita Fritjof Capra. Hegel e Marx não estão vivos para protestarem, ainda bem!
Para o pensador Gilles Lipovetsky, passado e futuro estão desacreditados existindo uma tendência de se pensar o presente. O estudioso francês propõe romper com juízos elementares e tendenciosos voltados apenas para um aspecto do problema, remetendo o leitor às teorias de Tocqueville, e sua busca de coexistência entre liberdade e igualdade. Mesmo assim, Lipovetsky alerta sobre a questão da tirania da maioria contida nessas idéias. No caso do Brasil, nem sei se é tirania da maioria. Pode-se pensar em esperteza de um partido e alienação de parte da população envolvida.
A autora, Janira Fainer Bastos, é articulista do JC