Na verdade, um problema que pouca gente gosta de abordar é que na raiz do aumento dos preços do petróleo e dos alimentos existe um forte fator especulativo ocasionado pela crise que, nos últimos meses, vem acometendo a economia dos Estados Unidos (até então, considerada uma espécie de porto seguro para o capital financeiro internacional).
“O problema básico está na desvalorização do dólar no mercado internacional. Com isso, as pessoas passaram a fugir daquele investimento, antes considerado seguro, e começaram a fazer apostas futuras nos preços do milho, da soja, do petróleo ou do feijão”, afirma a professora do curso de economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Maryse Farhi.
Embora tais apostas sejam feitas em relação a safras que ainda nem ocorreram (a do ano que vem, por exemplo), elas têm o poder de balizar as variações de preços dos produtos agrícolas. Isso foi a principal razão para que o valor do feijão (um dos principais itens da mesa do brasileiro) tenha aumentado em quase 150% no ano passado.
O fato de o valor desses produtos oscilar positivamente não significa (em tese) que o restante da economia será afetado pela pressão inflacionária. “Em princípio, o aumento dos preços das commodities não terá influência alguma no valor cobrado por uma cabeleireira em seu salão de belezas, por exemplo. Uma coisa não tem relação direta com a outra”, salienta Farhi.
Só que o Brasil convive com um problema sério, o da reindexação, herança macabra dos tempos em que o País convivia com índices de inflação superiores a 30% ao mês. Esse processo ficou muito claro nas últimas semanas, quando certos serviços básicos prestados à população, como os pedágios, tiveram seus preços reajustados com base em percentuais bastante superiores aos calculados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), usados pelo Banco Central (BC) para definir as metas de inflação do País.
“Dessa forma, um evento que não se reproduziria no tempo acaba se tornando algo permanente. A inflação, no caso do Brasil, é um processo que se auto-alimenta”, explica Fahri. De acordo com ela, o País vivenciou épocas em que seria possível eliminar a reindexação. “Ano passado, quando as condições da economia se mostravam bem mais favoráveis do que hoje, esses índices poderiam ter sido substituídos, sem traumas, por mecanismos de reajuste que não se reproduzem no tempo, como a livre concorrência, por exemplo”, salienta.
Agora, explica ela, numa época de aumento de preços no mercado internacional, existe uma resistência natural das empresas em abrir mão da reindexação. É nessas horas, aliás, que a inflação mostra seu lado mais perverso.
“A inflação é sempre favorável às classes dominantes. Basta pensarmos na Alemanha, na época da República de Weimar (após a 1.ª Guerra Mundial), ou no Brasil, nos anos 80. A escalada dos preços, registrada nos dois períodos, permitiu que ocorresse uma forte acumulação de renda nas mãos dos mais ricos”, afirma ela.
Nos últimos 12 meses, o Índice Geral de Preços - Mercado da Fundação Getulio Vargas (IGP-M), usado como referência para reajustes de aluguéis, subiu em mais de 13%. Os pedágios das rodovias estaduais, cujos valores costumam ser elevados com base no IGP-M, tiveram aumento de mais de 11% algumas semanas atrás.
Por outro lado, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) calculado pelo IBGE, que, em geral, serve para balizar os aumentos salariais para a maioria das categorias de trabalhadores, ficou um pouco acima de 6,5%, no mesmo período.
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Finalidade
O economista da Fundação Getulio Vargas (FGV) André Braz explica que o Índice Geral de Preços - Mercado (IGP-M) não foi criado com a finalidade de servir de referência para reajustes no setor de serviços.
“Ele (o índice) foi desenvolvido para medir as variações que ocorrem no mercado. Se as empresas o adotaram como referência, foi porque julgaram que ele era o mais apropriado. A FGV nunca sugeriu que ele fosse usado para essa finalidade”, pondera ele.
Braz lembra que, atualmente, diversos segmentos do mercado, como o de telefonia fixa, por exemplo, já utilizam outros instrumentos para calcular seus reajustes. “São espécies de ‘cestas de índices’, das quais o IGP continua sendo um componente importante”, explica.