Mais tradicional que o anual churrasco da Vila Vicentina é a atuação das centenas de voluntários durante o evento. Alguns, há mais de três décadas trabalham durante a festa e muitos nem pensam em parar. Sobre a história do churrasco, os pioneiros recordam da época em que os bois eram doados vivos e recolhidos pelos voluntários, e também sobre um dos mais impressionantes fatos sobre o evento. Em todos os 57 churrascos da Vila Vicentina, nunca choveu durante a festa.
Este é o sétimo churrasco da atual presidente da vila, Delfina Rosa Pregnolato. Apesar de prever um movimento de mais de 30 mil pessoas, ela acredita que ontem a procura pelo evento estava menos intensa do que o ano passado. Para Delfina, a Lei Seca, que tornou mais rigoroso o policiamento de motoristas que ingerem álcool, pode ter afetado o evento, já que muitos participantes sempre acabam cedendo à dupla churrasco e cerveja.
Ela calcula que cerca de 500 pessoas trabalham voluntariamente na festa, preparando os mais de 9 mil espetos de carne, 1,5 mil de lingüiça e outros quitutes oferecidos ontem, como bolinho de bacalhau, sardinha, batata frita e cachorro-quente. “Tem gente que saiu ontem (anteontem) às 23h e voltou às 5h de hoje (ontem), para começar tudo. E só vão sair daqui à noite”, diz.
E é esse esforço conjunto que faz o sucesso do evento desde o seu início, na década de 50. Cid Pimentel, 82 anos, um dos pioneiros da Vila Vicentina, destaca a dedicação da equipe. “Estou aqui há 40 churrascos e desde o início, os grupos de vicentinos e os muitos colaboradores se empenharam em fazer do churrasco uma das melhores festas da região”, avalia. E parece que o evento tem uma boa proteção divina. “Nestes 57 anos, nunca houve um churrasco prejudicado pela intempérie”, destaca.
O atual tesoureiro da vila, Jandyro Marques, 72 anos, que desde a década de 70 trabalha na festa, conta que a chuva só assustou a organização uma vez. “Há alguns anos, o dia do churrasco começou com chuva. Mas às 9h, o céu abriu e o tempo ficou bom. Mas só até às 17h. Assim que a festa acabou, deu uma chuvona. A gente fala que é São Vicente dando uma mãozinha”, conta.
Ele também lembra da época em que foi presidente da Vila, na década de 80. “Nós recebíamos as doações de bois vivos e era muito complicado”, confessa. Antes do evento, a direção ia até a prefeitura solicitar um caminhão para recolher o gado doado. “Quantas vezes a gente ia até uma fazenda longe de Bauru e voltava sem o boi, porque o dono da propriedade não tinha avisado o funcionário sobre a doação”, recorda.
Todos os animais eram colocados em pastos de algum vicentino e, na véspera da festa, os animais eram levados até um frigorífico, para o abate. Mas como nem toda a carne do boi é de primeira, muitos espetinhos acabavam abandonados pelos participantes da festa. Foi então que ele teve a idéia de comprar a carne. Hoje, todos os espetinhos de carne da festa são feitos com noix. E Marques está satisfeito com o resultado. “Hoje você não encontra mais nenhum espetinho encostado por aí”, diz.
Em todas as barracas da festa, era possível encontrar ontem voluntários que há muitos anos se dedicam ao churrasco. Em uma das que serviam bebidas, a reportagem encontrou José de Carvalho, 76 anos, e José de Carvalho Filho, trabalhando juntos. Pai e filho são voluntários há mais de 30 anos. “E eu só paro quando Deus quiser”, garante Carvalho.