10 de julho de 2026
Bairros

Corte de horas extras prejudica atendimento nos prontos-socorros

Por Lígia Ligabue | Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 4 min

O efeito da portaria do prefeito Tuga Angerami que proíbe o pagamento de hora extra em dinheiro, publicada na edição de sábado do Diário Oficial, foi sentido na pele pela população bauruense, ontem: os prontos-socorros estavam lotados e a demora para atendimento era além do já comum nas segundas-feiras.

Argumentando que adotou a medida por conta da Lei de Responsabilidade Fiscal, Tuga determinou que as horas extras trabalhadas sejam compensadas em folga, no sistema de banco de horas - somente os médicos continuam recebendo por hora extra. Querendo receber em dinheiro, ontem, muitos servidores bateram seus cartões de ponto e foram embora assim que terminaram sua jornada normal.

Nas unidades de urgência e emergência, isso significou atendentes, motoristas, enfermeiros e auxiliares de enfermagem deixando o trabalho mais cedo e pacientes tendo que esperar horas pelo atendimento.

Os prontos-socorros não suspenderam o atendimento, mas muitos servidores fazem hora extra para completar o quadro de funcionários - e assim ganham mais. Com a suspensão do pagamento do adicional, estes servidores deixaram de trabalhar, diminuindo a quantidade de servidores em cada período.

No Pronto-Socorro do Jardim Bela Vista, a saída dos funcionários pegou a população de surpresa. “Deu 13h e as enfermeiras foram embora. Agora só tem gente na recepção e os médicos. Eles (os médicos) que vêm até aqui (sala de espera) pegar os prontuários dos pacientes”, conta Nilza Aparecida Godoy Bueno, 44 anos, moradora do Jardim Vânia Maria, que chegou às 5h na unidade para ser atendida.

A paciente Rosa Guimarães, 78 anos, se solidarizou com a atitude dos funcionários. Com diabetes, ela é levada pela ambulância social todos os dias até a unidade de urgência e emergência trocar os curativos de seu pé. “Eu cheguei aqui e não tinha ninguém para fazer o curativo. Uma enfermeira que é amiga minha pediu um favor e acabaram me atendendo. As enfermeiras são muito atenciosas e merecem o pagamento das horas extras. Elas estão certas de reclamar”, observa.

No Pronto-Socorro Central (PSC), a situação se repetiu. Na tarde de ontem, muitos funcionários foram embora assim que a jornada contratual venceu. Se nas segundas-feiras a procura pela unidade de urgência e emergência costuma ser grande, ontem não foi diferente. E os funcionários que cumpriam o turno tiveram que se desdobrar.

“Ontem (anteontem), precisou uma pessoa sair chutando tudo aqui para ser atendido. Hoje (ontem), parece que vai ser a mesma coisa”, criticou Wellington Walton Flaks, 24 anos, que procurou o atendimento no PSC pelo segundo dia consecutivo. Com dores abdominais, ele reclamava da demora para a consulta. “A gente gasta passe, perde dia de serviço, não recebe atestado e eles não resolvem o nosso problema”, lamenta.

Maria Nilza Andrade Silva deixava a unidade depois de sete horas de permanência. Ela acompanhava o filho adolescente que estava com o pé machucado. “Lá dentro, o pessoal estava reclamando muito do atraso. Dizem que o pessoal foi embora, mas eu fui atendida normalmente pelos enfermeiros”, conta.

À noite, a situação piorou. A falta de atendentes, maqueiros e profissionais de enfermagem prejudicou ainda mais o atendimento à população. Revoltados, os funcionários da unidade procuraram vereadores para denunciar o problema, comentando que se a situação se mantivesse, poderiam paralisar as atividades.

____________________

De volta para casa

Assim que chegou para trabalhar, ontem pela manhã, e soube que o pagamento das horas extras estava suspenso, um motorista de ambulância do Pronto-Socorro Central (PSC), que preferiu não divulgar seu nome, voltou para casa. “Hoje (ontem) não era meu plantão, mas sim meu dia de fazer extra. E é um absurdo isso de não pagarem em dinheiro, principalmente porque é retroativo, vale para o que trabalhamos em junho”, explicou.

O motorista relatou que seu salário é de cerca de R$ 1 mil mensais para 40 horas semanais trabalhadas. Mas como faltam funcionários, faz hora extra toda semana, o que eleva seu salário para aproximadamente R$ 2 mil. “Para suprir a falta de funcionário, a gente faz hora extra, mas agora com essa decisão, só vou fazer o meu plantão”, reafirmou.

Segundo ele, ontem pela manhã, dos quatro motoristas de ambulância que deveriam trabalhar no PSC, apenas um, que estava em seu plantão, estava à disposição dos pacientes. À tarde, a reportagem constatou que havia três ambulâncias estacionadas no PSC, sem motoristas. Uma funcionária da unidade de saúde questionou o encarregado do setor se havia motorista para viajar para Jaú e ele que disse no momento não havia profissional à disposição.