Ainda me lembro da época em que nas noites de doming, na Praça Rui Barbosa e ruas adjacentes, acontecia o popular footing, evento muito aguardado pela mocidade de então.
Braço-no-braço, grupos de quatro, seis garotas, caminhando devagar, volteavam o interior da praça que naquele tempo o povo, sabiamente, preferia chamar de jardim, título mais apropriado para o conjunto de pequenos lagos, gramados e canteiros de flores que preenchiam grande parte do logradouro.
Em pé, postados ao longo das alamedas, os rapazes observavam a passagem do cortejo feminino. Quando sentia atração por uma das passantes, o moço mais ousado dirigia a ela um gracejo, um galanteio. O tímido só arriscava um cumprimento e o envergonhado se restringia a lançar um olhar suplicante em direção à sua eleita, tipo de abordagem que, por irradiar sinceridade, acabava sendo mais eloqüente que a dos mais corajosos.
O resultado do flerte era conferido nas voltas seguintes e, não raro, a moça cortejada se desligava de suas companheiras e passava a caminhar ao lado do seu cortejador. Assim nascia um namoro. As famílias sentavam nos bancos de pedra que rodeavam o coreto (alguns traziam de casa um assento) e apreciavam a apresentação musical da Banda do 4º BC enquanto a criançada comia pipoca, corria e se deslumbrava com os jatos d’água que jorravam da mesma fonte que ainda hoje lá está. Só que, infelizmente, como dizia aquele samba do carnaval de antanho, a fonte secou.
A televisão, com seus atrativos, prendeu as pessoas em casa e determinou o fim dos passeios, dos cinemas e até do namoro no portão. A praça passou a ser pouco freqüentada.
Por não estar morando na cidade na ocasião, ignoro quais foram os motivos que levaram o alcaide e vereadores da época a concordar com a macroalteração efetuada no formato original do antigo jardim. Terá sido o povo – que é o verdadeiro dono da praça – consultado ?
Parece que do antigo jardim restaram as árvores que margeiam as calçadas laterais, o coreto cujas características destoam da arquitetura atual, a fonte desativada e o busto do honorável Rui.
Em rincões longínquos, os habitantes e o governo das cidades se preocupam em preservar os espaços públicos, o que não acontece aqui na terrinha, haja vista o desaparecimento do estádio onde jogou aquele que foi o maior jogador de bola do planeta. Fossemos um país mais adiantado, e os três níveis de governo teriam se cotizado para fazer do campo do BAC um centro esportivo-educacional para a gurizada. Esta, no entanto, é só a opinião deste escriba, um saudosista extremado.
Apesar de tudo, algo continua igual em nossa praça mais central: o povo que lá convive e sobrevive.
- Os aposentados que gastam o tempo – já que o dinheiro deles é curto – no jogo de damas, dominó ou em rodadas de truco.
- O evangelista que prega as Boas Novas, figura quixotesca para muitos e profética para uns poucos, como eu.
- O “homem da cobra” e sua panacéia “elaborada a partir de ervas naturais”.
- O peruano de cabelos longos e as melodias que brotam de sua flauta inca.
- O hippie-artesão, o engraxate, o pipoqueiro, o vendedor de loto, de sanduíche e as mulheres que talvez por não encontrarem o que fazer em casa vem fazê-lo na praça.
Talvez o leitor não saiba, mas toda aquela gente não tem uma fonte de água pra saciar a sua sede. Quem sabe se alguma pessoa ou entidade não providencia um bebedouro que leve algum refresco para aquele sofrido povão?
Oscar Camaforte - RG 3.640.192