09 de julho de 2026
Esportes

Gateball: Perto das últimas tacadas?

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 10 min

Mal despontam no horizonte os primeiros raios de sol e a movimentação já é intensa na quadra de terra batida, na avenida Nuno de Assis, região próxima ao viaduto da rua Treze de Maio. Com vassouras de piaçava em mãos, alguns integrantes do grupo, formado por aproximadamente dez idosos, todos da comunidade nipônica, aplanam com carinho a fina camada de areia que cobre o quadrilátero de 25 metros de comprimento por 18 metros de largura.

Enquanto alguns se dedicam ao nivelamento do terreno, que não pode apresentar qualquer tipo de ranhura ou obstáculo, deixando o caminho livre para o deslizar das bolas impulsionadas com as tacadas, outros preparam corpos, mentes e equipamento. No momento em que a cidade “acorda”, eles se aquecem, esboçam as primeiras tacadas e traçam as estratégias e jogadas iniciais, numa disputa em que, apesar da aparente simplicidade, detalhes mínimos podem fazer a diferença no placar final.

Sem dar bola para a temperatura amena, companheira quase que diária nas manhãs de julho, os jogadores do time bauruense de gateball, modalidade esportiva criada no Japão, no final da década de 1940, estão animados para o início de mais uma jornada de treinos, que ocorrem de terças às quintas-feiras, pontualmente às 7h, fazendo do grupo, trocadilhos à parte, literalmente, o time do “Sol Nascente”.

A vitalidade - a média de idade do time varia da casa dos 60 aos 90 anos -, que dá de goleada em muitos jovens sedentários, é outro atributo que chama a atenção entre todos os participantes. Durante os 30 minutos da partida, cronometrados de forma regressiva em relógio de mecanismo simples e manual, pendurado na parede ao lado do placar, anotado com giz e pequenas rodelas metálicas coloridas, representando os pontos de cada time (branco ou vermelho), não se vê reclamações de dores, sono ou qualquer outro traço de indisposição.

As únicas “broncas” que se escutam ao redor do campo são referentes às jogadas perdidas, a maioria delas procedidas por risadas de adversários e até mesmo em coro com os próprios companheiros. Ninguém chia por pular da cama cedo, pelo contrário: “Ao longo do dia o pessoal tem outros compromissos”, atribui o aposentado Hideo Yamaguchi, um dos integrantes do time, mantido pelo Clube Cultural Nipo-Brasileiro de Bauru. “Muitos aqui têm que ir ao banco, para sacar a pequenina aposentadoria”, completa, rindo da própria piada, ao lado dos parceiros de taco.

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Risco de extinção

Apesar da diversão evidente, os praticantes do gateball na cidade convivem com uma ameaça silenciosa, mas que tira o sono dos esportistas matutinos: o risco da modalidade acabar por falta de praticantes. A alta faixa etária notada entre os jogadores, que, apesar de esbanjarem vitalidade e disposição, às vezes fala mais alto e desfalca as equipes. Um dos exemplos é a ausência de Yamamoto, um dos “artilheiros” do grupo, que, aos 95 anos, está afastado para cuidar da saúde.

“Isso não acontece somente aqui. Jogadores saem sem reposição”, observa Minoru Tomita, coordenador do departamento de gateball do “Nipo Brasileiro”. “Os idosos um dia morrem e os times se esvaziam”, lamenta. Praticante do gateball há 12 anos, ele é testemunha do surgimento do esporte da cidade e, ao lado dos colegas, luta para não presenciar o cronômetro da modalidade zerar de forma derradeira em Bauru.

A cidade, segundo Tomita, não é a única que vive sob a “ameaça de extinção” do esporte. Outros municípios, entretanto, vislumbram a renovação gradual da modalidade por meio da integração das novas gerações ao gateball. “Em outras cidades existem jogadores jovens, que disputam torneios específicos. Até campeonatos infantis são realizados”, exemplifica o coordenador do time bauruense, que atribui a raridade de adeptos mais novos à realidade dos dekasseguis. “Muitos vão embora para trabalhar ou então estão ocupados por aqui mesmo com outras atividades”, argumenta, citando também os hobbies modernos que atraem os mais novos, entre eles os jogos eletrônicos e a Internet.

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Jogo democrático

Para assegurar a continuidade do esporte e conseqüente preservação de uma das raízes da população nikkei, em pleno ano do centenário da imigração japonesa no Brasil, o coordenador do departamento de gateball do Nipo incentiva a chegada de novos praticantes, independentemente das respectivas datas de nascimento, enumerando os benefícios que o esporte oferece. “É um jogo que atrai muita gente da terceira idade porque ajuda a evitar doenças causadas pela ociosidade. Tira muita gente do sofá”, incentiva, citando campeonatos que reúnem equipes híbridas entre homens, mulheres, jovens, crianças e idosos. “A chegada de jovens para a prática do gateball é muito bem vinda”, convida Tomita, citando o nascimento de novas amizades entre diferentes gerações por meio da convivência ligada ao esporte.

Nos constantes campeonatos que o grupo vinha disputando - até ficar desfalcado, apenas com nove integrantes, um a menos do que o mínimo exigido para correr atrás de novos troféus -, a característica democrática da modalidade esportiva já dava seu tom no time bauruense, atesta Lúcia Tomita, uma das três mulheres remanescentes no grupo, que já chegou a integrar certames exclusivamente femininos. “As mulheres eram maioria”, resume a jogadora, adepta da modalidade há 12 anos.

Em casa, ela garante que não há rivalidade. Pelo contrário, admite a habilidade do marido. “Ele (Minoru) joga mais e treina menos”, elogia Lúcia, incentivando também a chegada de novos praticantes, independentemente de idade, sexo e ascendência. “É um esporte aberto também a quem não é japonês”, disse a integrante do time, ainda empunhando o taco, dentro do campo, após encerrar mais uma etapa de treinamento.

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Integração e saúde

Além de melhorar a qualidade de vida de seus praticantes, o gateball também é uma forma de interação entre esportistas de diferentes cidades, Estados e até nacionalidades. Filiada às federações nacional e estadual da prática esportiva, a equipe de Bauru já chegou a integrar o quadro de competidores em eventos de âmbito estadual, nacional e internacional, com a disputa do Sul-Americano, há quatro anos, em Buenos Aires, na Argentina.

Bauru ostenta conquistas em âmbito regional, com destaques aos desempenho de 2006 (11 vitórias em 7 jogos). Ano passado foram apenas duas vitórias e, para 2008, o cenário de competições, em contraste ao ambiente notado durante os treinamentos, não é animador. Falta “quórum” para a inscrição em torneios oficiais fora da região. Atualmente, o único campeonato integrado por Bauru é o “Torneio da Amizade”, disputado mensalmente, e que conta com a participação de seis municípios. Além de Bauru, participam times de Cafelândia, Lins, Getulina, Guaimbê e Promissão.

Mas a ausência temporária em campeonatos não impede o contato de jogadores da cidade com praticantes de fora. Fugindo do inverno de Campos do Jordão, Hideo Yamaguchi, o mesmo que, após o treino, enumerou, de forma bem humorada, os compromissos durante à tarde, integra o time bauruense, mesmo com “morada fixa” na cidade serrana. “Venho para cá no inverno, para escapar do frio de Campos do Jordão”, justifica o aposentado, hospedado na casa da filha bauruense durante a estação mais gelada do ano.

“A receptividade que encontrei aqui foi fantástica”, elogia o jogador, que confessa ficar “em cima do muro” numa eventual disputa entre Bauru e Campos do Jordão. “Torço para o sucesso de ambos”, esquiva o adepto do gateball, enaltecendo os benefícios trazidos pelo esporte. “A satisfação e o prazer que o jogo proporciona faz bem para a mente e físico. É muito benéfico para a circulação, principalmente no frio”, incentiva.

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Como nasceu o esporte

O coordenador do departamento de gateball do Nipo bauruense aponta que o esporte, apesar de praticado há cerca de 20 anos na cidade, nasceu há mais de seis décadas, em solo japonês. “O esporte foi criado no período pós-guerra”, cita o adepto da modalidade em Bauru.

Criado em 1947, a modalidade criada por Eiji Suzuki, tinha como finalidade inicial proporcionar, conforme levantamento histórico da União dos Clubes de Gateball do Brasil (UCGB), era fomentar a prática de atividades saudáveis e divertidas entre as crianças japonesas, que cresciam em meio ao pesado ambiente do pós-guerra no arquipélago.

A partir do críquete, esporte popular na Inglaterra, cuja regra básica consiste na pontuação através das bolas que atravessam pequenas metas fixadas na gama, o japonês, morador de Asahikawa, província de Hokkaido, idealizou a nova modalidade, que, de acordo com seus praticantes, ainda agrega regras e jogadas que remetem ao jogo de bilhar e até mesmo ao futebol. “É uma união do futebol, golfe e ainda do pólo”, ilustra o bauruense Minoru Tomita.

Estudo publicado pelo site da secretaria de esportes da prefeitura de São Paulo, que reúne a maior colônia nipônica do País, e, conseqüentemente, mais praticantes da modalidade, aponta a existência de, aproximadamente, 15 mil jogadores de gateball em todo o Brasil, onde o jogo desembarcou no final da década de 1970.

Apesar da aceitação da modalidade na “pátria de chuteiras”, a quantidade de praticantes, em comparação a sua terra de origem, ainda é pequena. Estima-se que seis milhões de pessoas pratiquem o esporte no Japão, onde o gateball, que não exige grande área para ser praticado, veio a calhar devido à pequena extensão territorial do populoso arquipélago.

Idealizado para crianças, em seus primórdios, o gateball rapidamente ganhou a simpatia do público mais velho e, apesar de criado no final dos anos 40, sua popularização foi consolidada, tanto na “Terra do Sol Nascente”, quanto no Brasil, apenas em meados da década de 80, época em que o gateball chegou a Bauru. “O pessoal daqui viajou para o Japão e se interessou em difundir o esporte na cidade”, sintetiza Minoru.

O ano de 1978 marca o desembarque do esporte em solo tupiniquim. O gateball chegou na mala e cabeça de Matsumi Kuroki, que, em novembro daquele ano, foi à “Terra do Sol Nascente” visitar o túmulo de seus antepassados. Ao ser recebido por um velho amigo, assistiu a um jogo de gateball e teve seu interesse despertado.

No início, o viajante trouxe ao País apenas o regulamento da modalidade, devido ao peso do equipamento. O primeiro jogo oficial no Brasil foi disputado em 1979. Dois anos mais tarde, o bairro de Itapeti, tradicional reduto japonês da cidade de Mogi das Cruzes, na Grande São Paulo, sediava o primeiro torneio da modalidade em território nacional.

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Conheça as regras

Considerado um jogo com regras relativamente simples e desgaste físico moderado, o gateball é um esporte que prima pelo trabalho em equipe e raciocínio para elaborar táticas, fundamentais para um bom desempenho durante as partidas. Os equipamentos básicos são: stick (taco), gate (arco), goal pole (pino central) e bolas, divididas nas cores branca (pares) e vermelha (ímpares), com respectivos números correspondentes à ordem das tacadas.

A quadra pode ser feita em qualquer superfície plana de terra, grama natural ou sintética, com dimensões que variam de 20 a 25 metros de comprimento por 15 a 20 metros de largura. Dois grupos são formados por partida. Cinco jogadores atuam pelo time vermelho, enquanto a outra equipe ostenta a cor branca.

As disputas consistem em impulsionar a bola com auxílio do taco e fazê-la passar embaixo dos três arcos (“gates”), todos com 22 centímetros de largura por 20 centímetros de altura. Cada passagem (“tsuka”) pelo gate equivale a um ponto.

A medida que a bola atinge o pino central, a pontuação é dupla, fazendo com que a equipe, ao final da trajetória (“agari”), obtenha cinco pontos. Além de seus fundamentos básicos, o gateball também possui alguns macetes peculiares, para um melhor desempenho - o “supak” é um deles, quando o competidor apoia um dos pés sobre uma ou mais bolas, auxiliando a performance da tacada. “É jogando mesmo que se aprende”, receita o coordenador do time bauruense.

Atualmente, explica Tomita, a maioria dos jogadores utiliza tacos constituídos por aço. Entretanto, os primeiros apetrechos eram feitos de madeira. Até hoje, alguns adeptos ainda preferem confeccionar seu próprio equipamento em oficinas caseiras. Alguns tacos de gateball, salienta Minoru, também podem ser constituídos de PVC. “As bolas são feitas de material semelhante às de snooker (moldadas com resinas especiais, geralmente derivadas do petróleo)”, especifica o coordenador do time, convidando curiosos para conhecer a modalidade.