10 de julho de 2026
Nacional

Cana obriga cidades a buscarem alimento fora

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Ribeirão Preto - Frutas, legumes e demais alimentos que o ribeirão-pretano consome estão chegando cada vez mais de longe. Cidades da região com tradição em algumas culturas desse tipo têm reduzido a área de plantio para ceder espaço para a cana.

Monte Alto, Cravinhos, Brodowski, Taiaçu e Jardinópolis estão entre os municípios que diminuíram o plantio de alimentos em até 15% de sua área.

No Estado, a área total plantada quase não cresceu comparada à safra 2006/2007: 0,97%, segundo o IEA (Instituto de Economia Agrícola), da Secretaria de Estado da Agricultura.

O tomate rasteiro, por exemplo, teve uma queda de 29,5% de sua área plantada, e a cebola, 6,5%, de acordo com levantamento do instituto em abril.

A mudança no mapa agrícola da região começou há dois anos, quando o produtor deparou-se com um desespero e uma esperança. Enquanto os preços dos alimentos estavam em baixa - a caixa de tomate chegara a R$ 5 -, a cana atingia picos de R$ 60 a tonelada.

Acostumados a plantar cebola, os irmãos de Monte Alto Alexandre Tabachi, 26, e André, 23, decidiram em 2006 apostar na cana-de-açúcar.

Arrendaram um dos sítios para uma usina, em um contrato de seis anos. “E pelo jeito, vamos renovar o contrato.

Ao contrário do alimento, a cana é dinheiro garantido, todo mês está na conta”, disse Alexandre Mesmo quem não arrendou parte das terras para a cana diminuiu sua produção.

O agricultor de Cravinhos Cristiano Calura, 29, plantava tomate em 16 alqueires; hoje, diminuiu para quatro. “Hoje, o preço da caixa está bom, R$ 40, mas é uma cultura que oscila muito.”

Além dos preços instáveis, a alta dos insumos e custos com funcionários encarecem a produção.

Luiz Seto, 47, que cultiva goiaba e carambola em Taiúva, quer vender seu sítio e comprar terras em Minas Gerais para plantar cana. “Com o insumo que não pára de subir, não tem como trabalhar.”

Segundo a Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), a opção de arrendar a terra para a cana ocorre por uma questão de mercado, mas há situações inversas, de produtores que apostaram na cana e hoje estão voltando a plantar outros tipos de cultura.

A maior parte dos hortifrútis que Ribeirão e outras cidades da região consomem depende da distribuição feita na Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais do Estado de São Paulo) de Ribeirão, a segunda maior central desse tipo no Estado.

Os alimentos são trazidos de cerca de 900 municípios, boa parte deles de outras partes do Estado, do sul de Minas Gerais e também do Paraná.

Entre os produtos da região, verduras vêm de Ribeirão, Jardinópolis, Brodowski e Cravinhos. Frutas, como laranja, goiaba e carambola, e legumes, como cebola, são trazidas de Monte Alto, Taiaçu e Cravinhos.

Alguns revendedores reclamam da distância cada vez maior das lavouras.

É o caso de Cleide Bastos, 56. Ela sempre comprou tomate em Monte Alto, mas já chegou a buscar o produto em Santa Catarina. “A produção caiu de um jeito que, se quer mercadoria, tem que ir longe.”