“Quanto mais conheço os homens, mais admiro o meu cachorro.” O tradicional slogan de adesivos de carros parece uma piada qualquer, mas é mais real do que se pensa. Isso porque a relação entre humanos e animais de estimação, teoricamente inofensiva e prazerosa, pode também trazer prejuízos como dependência e ansiedade, dependendo da forma como se estabelece ou do comportamento do dono.
Segundo médicos ouvidos pela reportagem, essas são algumas manifestações negativas em uma relação que deve ser benéfica. Além de proporcionar afeto e diversão, os animais podem reduzir a tensão e até o batimento cardíaco das pessoas que o tocam.
“Pessoas com mais dificuldade no contato com o outro muitas vezes vêem no animal uma forma menos ameaçadora de fazer vínculo, mas isso pode levar ou reforçar um isolamento”, aponta o psicólogo Murilo Battisti, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Ele afirma considerar normal uma relação de amor incondicional com o animal e vê-lo como um membro da família, mas que é preciso estar atendo para que a relação seja saudável. “Essa troca pode ser muito bacana pelo exercício da afetividade”, diz.
O zootecnista Alexandre Rossi, mestre em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP), diz ser comum que uma ligação muito intensa cause uma “ansiedade de separação”, pela qual a pessoa fica intranqüila ao sair de casa por preocupar-se com o animal.
A vendedora de roupas Nádia Areda Nunes, 48, que vive com seus dois “filhos” da raça samoieda - originária da Rússia -, conta que fica preocupada com um deles, Flopy, quando sai. Isso porque o cachorro também sente a distância e come partes da casa quando está só, como pedaços do painel da máquina de lavar, guarnição da porta e móveis.
Nádia mora e trabalha em seu apartamento em Cerqueira César (zona oeste da Capital paulista) e diz que sai de casa quando tem que fazer alguma coisa, não se prendendo pelo animal. Entretanto, admite que gostaria de trabalhar fora e que ainda não se decidiu por isso em razão de Flopy.
Segundo Rossi, não é algo negativo a pessoa procurar o animal ao chegar em casa. “Ele ajuda a reduzir a tensão e facilita contato com outras pessoas.” Na rua, os animais também exercem são “facilitadores sociais”, ajudam pessoas a se conhecerem e ainda são pretexto para cantadas manjadas.
Para a veterinária Ana Luiza Mazorra, isso é importante em uma cidade como São Paulo, em que as pessoas tendem a estar mais sozinhas, e cheias de trabalho e onde muitas vivem apenas com o animal . Ela diz ter a impressão de que a relação não é tão próxima no interior.
“Aqui o animal acaba sendo usado como uma válvula de escape. Percebo uma ligação muito acentuada em alguns clientes e um medo muito grande pelo que pode acontecer com o animal. Por outro lado, tem o ponto positivo de perceberem mais facilmente sintomas simples no animal, como o fato de ele beber mais água,” diz ela que já foi inclusive ameaçada de morte pelo dono de um cão em estado grave.