10 de julho de 2026
Cultura

Sobre Mundos: ‘Uma Vida em Segredo’

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Adaptar-se a um ambiente da burguesia urbana negando a sua identidade ou ser como realmente é procurando o seu próprio sentido de vida. Este é o dilema vivido por Biela, uma jovem que, após a morte de seu pai, deve morar com Conrado e sua esposa, Constança. Os dois primos procuram adaptar Biela a uma vida social de acordo com as posses da família e, para tanto, encomendam vestidos refinados e a ensinam a se portar como uma jovem de finas etiquetas.

Biela, porém, apenas se sente livre ao lado dos empregados da casa onde mora. Afinal, seu modo de vida é simples e na simplicidade Biela se sente realmente autêntica. “Uma Vida em Segredo”, de Suzana Amaral, confronta dois mundos diversos e questiona o sentido da vida e a complexidade que criamos em torno de nossa existência.

À medida que vamos vivendo, nós, seres humanos, nos adaptamos a uma determinada normalidade. Aprendemos não somente como a maioria em nossa sociedade se comporta, mas também assimilamos a sua visão sobre a realidade. Assim, nos tornamos seres sociais que obedecem as regras do jogo e pertencem ao senso comum. Esta forma de “inculturação”, ou adaptação à família, ao grupo ou à sociedade, contribui, na verdade, para adquirirmos uma espécie de miopia, uma estreiteza de visão.

Ao vivermos na normalidade, perdemos a prática da análise crítica, pois, na procura de adaptação à maioria acabamos por perder o bom senso e na necessidade de nos “encaixarmos” no nosso contexto social nos alienamos da realidade. O hábito da análise crítica sobre nossa própria pessoa, sobre os outros e sobre a sociedade nos liberta do efeito narcótico da normalidade e nos faz enxergar as diversas portas que podem nos levar a conhecer melhor nossa realidade.

A miopia do normal nos cria o medo de abrir portas e, assim, perdemos a chance de entrar em uma nova sala, nos reduzimos a observadores da vida. Através da análise crítica descobrimos que portas são oportunidades e compreendemos que, se vencermos o medo e entrarmos, damos um grande passo: passamos a viver! O grande segredo é saber quando e qual porta deve ser aberta.

A vida, porém, não é tão rigorosa como normalmente se fala; ela propicia erros e acertos. A segurança do acerto eterno é uma ilusão e os erros podem ser transformados em acertos quando com eles se aprende. A vida é generosa, pois enriquece quem se arrisca a abrir novas portas e viver outras possibilidades. Ela privilegia quem descobre seus segredos e generosamente oferece afortunadas oportunidades. Porém, a vida pode se tornar também como água parada que, com o tempo, apodrece e cheia mal. Se não temos coragem de ultrapassar portas, teremos sempre a mesma porta pela frente.

No lugar de criação, temos repetição, no lugar da multiplicidade de cores fazemos uma monotonia monocromática, a vida perde sua dinâmica e cai na estagnação. Na vida, portas não são obstáculos, mas grandes chances de se vivenciar passagens, de continuar a viagem. Mas para se perceber o significado das portas é necessário localizar-se, conhecer seu contexto e perceber as diversas portas pelas quais nós já passamos; em outras palavras, é necessário libertar-se do senso comum sobre pessoas e o mundo.

Sem dúvida alguma, sair da normalidade não é tarefa fácil. A realidade não é feita só de imediato. A realidade não é legível de maneira evidente nos fatos. Idéias e teorias não refletem, e sim traduzem a realidade, de um modo que pode ser errôneo. Nossa realidade não é, senão, nossa idéia da realidade. Esta depende, também, da aposta. O que chamamos de verdade é a nossa construção da realidade e, muitas vezes, ela possui mesmo pouca objetividade.

Por isso, se faz necessário sempre o exercício da autocrítica e de abertura para nós mesmos, para o outro e para a sociedade em que vivemos. O importante é não parar de questionar tanto nosso modo de pensar como também nosso modo de viver e buscar nos dois uma maior autenticidade. A curiosidade tem sua própria razão para existir e nos leva a abrir portas. Estas, porém, não podem nos anular como pessoa e nos obrigar a negar o que desejamos ser e como desejamos viver.

Uma pessoa só pode se sentir reverente a partir do momento que sua vida é respeitada e suas opções podem ser vividas livremente. Basta que a pessoa tente apenas compreender um pouco mais a riqueza que existe dentro de si para estar apto a conhecer outras riquezas contidas nas novas circunstâncias. Mas estas não podem ser formatadoras de nossa personalidade e sim momentos enriquecedores dela. Nunca devemos perder a santa curiosidade, mas também não podemos abrir mão da sagrada autenticidade. Afinal, viver as oportunidades da vida, ou seja, as portas que podem ser abertas, é uma opção, mas o respeito às individualidades é que torna a nossa realidade rica para o aprendizado.

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