08 de julho de 2026
Geral

Jovens estão sofrendo mais infartos

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Em setembro do ano passado, Marcos Pereira da Silva sentiu uma forte dor no peito. Ele procurou o hospital e o médico disse que ele estava com catarro no pulmão. Um mal possivelmente provocado pelo excesso de cigarros. Marcos era um fumante inveterado.

Ele foi mandado para casa, mas a dor continuou. No dia seguinte, Marcos procurou outro médico, fez novos exames e ouviu como diagnóstico que ele estava sofrendo de desgaste físico. De novo, foi mandado para casa.

No terceiro dia, a dor aumentou. Mas desta vez, ela veio acompanhada de uma alteração na pressão, que começou a subir até que Marcos desmaiou. De volta ao hospital, ele foi submetido a um eletrocardiograma - teste que detecta e registra atividade elétrica do coração para localizar problemas cardíacos.

O diagnóstico, desta vez preciso, surpreendeu a todos. Marcos teve um infarto. A surpresa não foi pela doença, que é a principal causa de morte no mundo, mas pela idade do paciente. Marcos tinha 28 anos. Novo demais para uma doença que afeta principalmente os mais velhos.

No entanto, estatísticas mostram que esse tipo de diagnóstico tem sido cada vez mais comum entre os jovens. A má alimentação, o cigarro, o sedentarismo e o estresse são apontados como as principais causas para esse retrato assustador.

Uma pesquisa feita na cidade de São Paulo revela que nos últimos dez anos dobrou o número de infartos em jovens na faixa etária entre 20 e 40 anos. Há dez anos, a ocorrência em jovens representava 6% do total de infartos registrados nos hospitais cardiológicos da Capital. Hoje, são 12%.

Em Bauru, não há estatística que mostre o quadro de dez anos em comparação com o de hoje. Mas de acordo com o Departamento de Saúde Coletiva, órgão da Secretaria Municipal de Saúde, nos últimos cinco anos, 34 jovens com idade entre 20 e 39 anos residentes em Bauru sofreram infartos, o que representa 3,8% do total de infartados no mesmo período.

No ano passado, foram registrados 146 infartos na cidade. Desses, cinco acometeram pessoas de até 39 anos. Em 2003 e 2004, no entanto, houve uma explosão de casos. Foram 11 e 10, respectivamente. Se fosse incluir na estatística as pessoas na faixa etária entre 40 e 49 anos, o salto seria bem maior. Foram 21 tanto em 2003 quanto em 2004.

Embora não há como comparar estatisticamente a realidade de dez anos atrás e hoje, cardiologistas de Bauru afirmam, sem medo de errar, que no dia-a-dia dos hospitais é possível observar que o aumento de infarto entre os jovens é um fato generalizado.

“Assim como em São Paulo, acredito que aqui em Bauru também dobrou a ocorrência de infartos em pessoas com menos de 40 anos nos últimos dez anos”, afirma o cardiologista Plínio de Almeida Barros Neto, 31 anos.

Segundo ele, os infartos estão se transformando em problema de saúde pública. “Eles têm aumentado gradativamente e nada tem sido feito”, observa ele.

O também cardiologista Christiano Barros, 34 anos, cita um aspecto que pode estar influenciando no aumento de casos entre jovens. Segundo ele, as mulheres entraram no grupo de risco e isso pode ter puxado a estatística para cima. “Cerca de 40 anos atrás, a proporção era de dez homens infartados para cada mulher. Hoje, a proporção é de 2 por 1”, comenta.

Na opinião dele, isso está ocorrendo porque cada vez mais as mulheres estão adotando os mesmos hábitos dos homens, como o tabagismo, o estresse e a má alimentação.

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Uma nova vida

Depois do infarto que teve em setembro do ano passado, Marcos Pereira da Silva, 29 anos, sofreu um novo baque em novembro. Em menos de dois meses, teve um segundo infarto.

Ele permaneceu nove dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Estadual. Não chegou a fazer cirurgia porque os medicamentos ajudaram a reverter o problema. Segundo ele, 50% de uma artéria estão entupidos. Para que ela não feche de uma vez e ele tenha um terceiro e, talvez, último infarto, teve de mudar radicalmente o estilo de vida.

Cigarro e bebida, nem pensar. Carne gordurosa e frituras quase nunca. Ao invés disso, uma dieta rica em frutas, verduras e legumes. Carne, de preferência as de frango e peixe. Marcos lembra que antes de ter o primeiro infarto ele exagerava nas frituras. Ele conta que além de pegar as frituras, ele despejava o óleo usado em cima da comida para dar “mais sabor”.

Associado a isso, Marcos não tinha o costume de praticar atividades físicas. Ele trabalhava descarregando caminhões e achava que isso era o suficiente.

Segundo ele, de todas as mudanças que teve de fazer em sua rotina, parar de fumar e beber foram as mais difíceis de se adaptar. “O vício é uma coisa que a gente não consegue largar assim de uma hora para outra. Mas tive de superar isso”, recorda.

Marcos ainda não voltou a trabalhar. Por determinação médica, ele está impedido de praticar esforço físico. Ele conta que até hoje as pessoas se espantam quando ficam sabendo que ele teve dois infartos com 28 anos. “Mesmo quando eu estava internado no hospital, as pessoas não acreditavam”, relembra.

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Fatores de riscos

Tabagismo

Sedentarismo

Dieta rica em gordura

Obesidade

Histórico familiar

Diabetes

Hipertensão

Colesterol alto

Fonte: Cardiologistas consultados