10 de julho de 2026
Bairros

Em ‘clima de Saara’, julho deste ano é o mais seco desde 2000 em Bauru

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 4 min

Há 29 dias não chove em Bauru. A estiagem é total neste mês, cujos dias seguiram “a seco” e transformaram julho deste ano no mais árido desde 2000. Ontem, a umidade relativa do ar chegou a 16,7%, percentual que coloca a cidade em estado de alerta. Para piorar, a temperatura máxima chegou a 29,1 graus, a mais alta deste inverno. À noite, no entanto, o agasalho é necessário. Guardadas as devidas proporções, as variações aproximam de Bauru o clima típico do deserto do Saara.

Por lá, ao norte da África, o índice médio da umidade do ar é de 10%. No dia 9 deste mês, Bauru registrou 11,9%, segundo a estação do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Universidade Estadual Paulista (Unesp). “Se assemelha ao deserto, mas não chega a tanto. No deserto a umidade é muito baixa e a temperatura pode subir muito mais durante o dia e cair muito mais à noite”, comenta o meteorologista do IPMet, Fernando de Almeida Tavares.

De acordo com ele, em apenas quatro dias deste mês a umidade do ar ficou acima dos 30%, situação que já exige esforço extra do organismo no processo de respiração. Em outros quatro dias, o percentual ficou abaixo dos 20%, em situação de alerta. Porém, em virtude de problema no sensor de umidade, o IPMet não considera confiáveis os índices inferiores a 20%.

Já em grande parte de julho o estado foi de atenção (entre 20% e 30%), conforme escala de umidade elaborada pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Desde 1991, a instituição passou a adotá-la como padrão de recomendação dos cuidados a serem tomados com a saúde, além de nortear a Defesa Civil. Na última segunda-feira, o órgão enviou alerta para baixa umidade do ar no Distrito Federal e em 13 Estados, sendo um deles São Paulo. A Capital, por exemplo, também bateu recorde. Registrou o mês de julho mais seco dos últimos 14 anos.

Saúde

O clima tem afetado a saúde principalmente de crianças e idosos. Porém, ainda não interferiu no nível do rio Batalha, responsável por 40% da água que chega às torneiras de Bauru. Segundo a assessoria de imprensa do Departamento de Água e Esgoto (DAE), como a temperatura cai após 21h, o consumo também. Só volta ao normal às 9h do dia seguinte, quando os termômetros indicam alta.

Aliás, a partir de hoje à tarde ou à noite, eles devem demonstrar queda média de dois graus, conforme previsão do IPMet. De acordo com ela, também existe pequena chance de chuva a partir do entardecer. Uma frente fria já está sobre o Paraná, mas não deve chegar em São Paulo, informa Tavares. Ele explica ainda que o final de semana pode ter tempo parcialmente nublado, com pequena queda na temperatura.

É possível que a esperada chuva demore ainda mais para vir. Só neste mês são 24 dias sem ela. Os anos que mais se aproximaram dessa marca foram 2003 e 2005, quando a precipitação “desapareceu” por 20 dias, acrescentam os dados do IPMet. Por conta da situação, o Corpo de Bombeiros se desdobra para atender casos de fogo em mato. Só ontem foram pelo menos dez chamados, sendo que numa das ocorrências a equipe trabalhou numa área de aproximadamente seis alqueires, nas imediações do Gasparini.

A fumaça piora a qualidade do ar que ontem estava regular, segundo a estação da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb).

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Crianças sofrem

Por conta da estiagem, nesta época do ano, o movimento no Pronto-Atendimento Infantil (PAI) chega a dobrar. Em alguns dias, o número de crianças atendidas salta das 200 por dia para 400. “No pico dobra, mas não são todos os dias. Muitas vezes temos 50% de aumento na demanda. No geral sobe dos 200 para 300, 350. A maior responsabilidade são as doenças respiratórias”, comenta o pediatra José Roberto Berber.

Elas incluem rinite alérgica, obstrução nasal, espirro, tosse, sinusite, faringite, infecção de garganta, além das crises de bronquite, comuns nesta época do ano. “Uma sinusite pode evoluir para pneumonia”, explica Berber. O problema é que, em muitos casos, as pessoas lançam mão da automedicação.

“As doenças se parecem muito, tanto as alérgicas quanto as infecciosas. Muitas vezes não tem necessidade de antibiótico. Em outras, o antibiótico pode mascarar um processo mais grave, como meningite. Diante do quadro de febre, tem que evitar a automedicação”, ressalta. A menigite é uma doença comum no inverno, quando as pessoas se confinam em ambientes fechados e facilitam sua propagação.