08 de julho de 2026
Internacional

Mamet busca distinção entre vício e virtude

Por Inácio Araujo | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

David Mamet passou recentemente, não sem barulho, da esquerda para a direita. O que muda em seu cinema ainda não é detectável, ao menos por mim, em “Cinturão Vermelho”. Suas velhas virtudes estão lá, como o hábito de perscrutar ambientes quase exóticos e trazê-los até nós (no caso, estamos no mundo do jiu-jítsu, modalidade de luta que faz sucesso nos canais pagos, não só dos EUA).

Ou a capacidade de, tendo criado um protagonista sólido, atirá-lo numa espécie de limbo do qual terá de lutar caso queira sair. É o caso de Mike Terry, dono de uma academia para quem as artes marciais são coisa sagrada. Ou seja, uma academia em estado meio falimentar, embora Mike seja um mito das tais artes. O problema é que se recusa a participar de lutas da TV, por mais lucrativas que sejam. Por aí ficaríamos, não

fosse o fato de Terry ser casado com a brasileira Sondra (Alice Braga), de uma família de famosos lutadores (não estamos longe da realidade: os brasileiros Gracie são citados como mestres dessas lutas). E Sondra vive achando que ele deve pedir dinheiro a seus irmãos (um deles é Rodrigo Santoro).

Mamet divide o ambiente: de um lado, a pureza; de outro, a sordidez. Um e outro se respiram, de tão contíguos. O clima que constrói é eficaz. Mas esses universos contradizem o Mamet de outros tempos, em que o mergulho do herói no desconhecido era sinal de mudança.

Nesse sentido, não parece que Mamet tenha mudado de lado no espectro político: parece só cansado, em busca de estabilidade, localizando num mundo pantanoso, com clareza, a distinção entre honra e desonra, vício e virtude. Nesse aspecto “Cinturão Vermelho” parece sofrer de uma ingenuidade quase comovente: qual o lugar da virtude num mundo vicioso por natureza como o mencionado pelo filme (pois baseado em apostas).

Aqui pode-se dizer que há algo do velho Mamet, esquerdista ou não: existe um quê autoritário na sua dramaturgia (a base de seu cinema). Ele continua a nos obrigar a ver as coisas como deseja que sejam vistas. É um olhar clássico o que dirige ao mundo (no sentido do cinema clássico, essa arte autoritária). Também nisso não mudou. Parece só estar tentando ser mais comercial. No elenco, os brasileiros fazem o papel dos Silva: Braga, Santoro e John Machado não têm muitas chances. O Brasil, sejamos honestos, também não: a visão de Mamet sobre nossos lutadores não é para nos encher de orgulho.