09 de julho de 2026
Polícia

Índice de mortes no trânsito se aproxima ao de homicídios

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

No primeiro semestre deste ano, 12 pessoas morreram em acidentes de trânsito na área urbana de Bauru, segundo cálculos do JC. No mesmo período, 14 pessoas foram assassinadas na cidade. Os índices mostram aproximação na incidência dos dois tipos de ocorrências. A tendência já havia sido notada no ano passado inteiro, quando 22 pessoas entraram para as estatísticas de vítimas fatais em desastres automobilísticos e outras 23 perderam a vida por conta de homicídios.

Quando a análise inclui os números do Policiamento Rodoviário (PR), as mortes nas rodovias disparam. Nos dois casos, a avaliação contempla período anterior à Lei Seca, cuja vigência começou no dia 20 de junho, mas demorou para ser assimilada em Bauru. Na cidade, no entanto, a aproximação dos números também tem relação com a queda no total de assassinatos: caíram de 40 para 20 nos últimos sete anos.

A ponderação é feita por membros da própria Secretaria de Segurança Pública (SSP), conforme a reportagem apurou. Por conta de tais variáveis, difícil fazer uma análise precisa dos números e garantir, por exemplo, que aumento nos acidentes sejam os principais responsáveis pela proximidade dos números.

“Só essa comparação pura e simples não é suficiente. Só nesse sentido não dá muito para avaliar. A estatística tem mostrado claramente uma certa estabilização nos dados. O fato de ter um pouquinho mais num ano e um pouquinho menos no outro não significa que subiu ou caiu. Às vezes, num só acidente, quatro pessoas morreram”, diz engenheiro e pesquisador bauruense Archimedes Raia Júnior, professor do programa de pós-graduação em engenharia urbana da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

Na opinião dele, a tendência das mortes em acidentes da área urbana é que haja não só estabilidade nos índices, como inclusive redução. “O trânsito, principalmente nas cidades maiores, flui menos, é mais moroso. Esse é um fato. Então, aumenta número de acidentes sem vítima fatal. O que faz com que se mantenha são os acidentes com moto. Se não tivéssemos o efeito da moto, esse número estaria caindo”, avalia.

Rodovia

Já a situação nas rodovias é outra. Neste caso, as ocorrências de acidentes estão numa curva ascendente. “Nas rodovias federais, por exemplo, os radares estão desligados há alguns meses por problemas de licitação. A fiscalização é quase inexistente. A não ser a presença do policial num ou outro ponto. A sensação é que na rodovia os acidentes graves têm aumentado”, comenta.

Na opinião de Raia Júnior, tanto as estradas ruins quanto as muito boas favorecem os acidentes. “Pense na Bauru-Jaú (Rodovia Comandante João Ribeiro de Barros). A estrada é excelente. Por que morre gente?”, questiona o especialista. Ele ainda avalia que o consumo de bebida alcoólica e de drogas lícitas também é muito grande por parte dos condutores.

“Às vezes toma um remédio para gripe, antibiótico. Dá um sono danado e a pessoa vai dirigir. Se pegar caminhões, o regime como eles estão trabalhando é absurdo. Irracional. Vi uma matéria de um motorista que confessou ter ficado cinco dias sem dormir, só tomando os rebites. É claro que uma pessoa dessas não tem condições mínimas para dirigir”, conclui.

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Sem informações

O JC tentou levantar números oficiais sobre vítimas fatais no trânsito, mas até o fechamento dessa edição a assessoria de imprensa da Polícia Militar (PM) não havia autorizado quem pudesse passar e avaliar os números. A falta de informações tornou-se constante não só pela PM, como por várias outras secretarias estaduais, coincidentemente em ano eleitoral.

Delegados locais, por exemplo, não estão autorizados a comentar qualquer estatística, sem aval de São Paulo. Frente ao posicionamento, impossível esclarecer dúvidas quanto aos dados de mortes no trânsito divulgados pela reportagem em anos anteriores. Os de 2001 e 2002, por exemplo, sugerem problemas ao especialista Archimedes Raia Júnior.

“Acho que é um problema de metodologia porque não tem sentido: um está muito baixo e outro muito alto”, conclui.