08 de julho de 2026
Geral

Lapsos alimentam universo das piadas

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 3 min

Na teoria, piadas existem para provocar risos. Na prática, elas podem representar muito mais que isso: dependendo do talento de quem as conta, elas podem ajudar a abrilhantar o discurso do político em campanha; converter-se em ferramenta providencial para o mancebo que tenta seduzir a donzela; ou ser de enorme valia para o candidato que luta para conquistar uma vaga de trabalho (principalmente se o futuro patrão for alguém bem-humorado).

Piada é um tipo de narrativa curta que descreve personagens e situações (em geral, estereotipados) com certa riqueza de detalhes como forma de envolver a audiência, preparando-a para um desfecho cômico.

“Ninguém sabe, ao certo, ‘de onde’ surgem as piadas. Talvez, elas nasçam da percepção de que é possível divertir-se com as ‘falhas’, sejam elas das pessoas, das instituições ou das línguas”, explica Sírio Possenti, professor do Departamento de Lingüística da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que tem livros publicados sobre o assunto.

Em outras palavras: a partir de representações idealizadas (do bom político ou do homem inteligente, por exemplo), a humanidade se diverte com suas próprias falhas - rebaixa pessoas e instituições e faz jogos inteligentes com as línguas.

Possenti lembra que, na medida em que as piadas trabalham com modelos estereotipados de pessoas e de situações, é possível dizer que tais narrativas seriam uma forma de dizer que quem tem os defeitos são os outros e não nós (como quando o brasileiro faz anedotas sobre a suposta falta de inteligência dos portugueses).

O professor lembra, porém, que há inúmeros casos de indivíduos e povos que fazem piadas sobre si mesmos. “Nós, brasileiros, por exemplo, temos o costume de contar histórias que rebaixam nosso País e nosso povo”, pondera.

Inesperado

Possenti lembra que, “quanto aos temas, pode-se dizer que as piadas costumam pôr em relevo o lado mais baixo da vida, os discursos de certa forma proibidos, controlados, não-públicos, não-oficiais. Nesse sentido, pode-se dizer que são politicamente incorretas (machistas, racistas, preconceituosas).”

Maldosas ou não, as narrativas do gênero têm uma característica em comum: necessitam de uma boa dose de surpresa para serem capazes de provocar risos em quem as ouve. “O importante de uma piada (de uma boa)”, diz Possenti, “é o sentido inesperado que ela provoca.”

O inesperado, aliás, também é o segredo de outra forma de humor muito utilizada pelas pessoas; o chiste - basicamente, quando alguém está conversando e, no meio da fala, “solta” algo que não pretendia dizer (troca um fonema ou muda palavras, por exemplo).

“Se a pessoa ri disso e o interlocutor a acompanha no riso, fez-se um chiste. Se o parceiro de conversa ficar envergonhado, como se pego em flagrante, terá havido apenas um lapso”, explica Viviane Veras, professora de lingüística e tradução do Centro Universitário Ibero-Americano de São Paulo, que estuda o assunto.

De acordo com o “pai da psicanálise”, Sigmund Freud, primeiro pesquisador a se debruçar sobre esse tema, quando um chiste ocorre, é como se os inconscientes dos interlocutores entrassem em uma espécie de ressonância. “No chiste, se tropeço e rio junto, cria-se uma espécie de solidariedade entre mim e quem me ouve”, diz Veras.

Ela relembra um caso famoso de chiste, relatado pelo próprio Freud: “Conta-se que Napoleão Bonaparte estava na Itália, numa festa, dançando com uma mulher. Querendo exibir-se como grande dançarino, o imperador francês olhou para o salão e comentou com a dama: ‘Todos os italianos dançam assim, tão mal?’ E ela respondeu, em italiano: ‘Non tutti, ma buona parti.’”

Buona parti poderia ser entendido tanto como “boa parte”, em português, quanto como Buonaparti, modo como Napoleão era conhecido na Itália. “Traduzir um chiste é difícil, porque o chiste joga com as palavras de cada língua, e reproduzir esse jogo em outra é algo difícil”, pondera a pesquisadora.