08 de julho de 2026
Geral

Veia irônica para analisar os fatos

Rodrigo Ferrari
| Tempo de leitura: 2 min

Detentor de um vasto repertório de “causos” cômicos (a maior parte deles reais) envolvendo a política nacional, o oftalmologista Rui Celeste Bertoti, 73 anos, que foi vereador em Bauru nos anos 80, acredita que o brasileiro possui uma veia irônica para analisar os fatos.

“Quando a Martha Rocha perdeu o título de Miss Universo, na década de 50, o caso acabou se tornando tema para uma música de Carnaval, no ano seguinte”, recorda-se Bertoti. Lançada em 1955, a marchinha “Por Duas Polegadas a Mais”, da dupla Pedro Caetano e Carlos Renato, referia-se ao episódio nos seguintes termos: “Por duas polegadas a mais/ passaram a baiana pra trás./ Por duas polegadas, e logo nos quadris/ tem dó, tem dó, ‘seo’ juiz”.

Na visão de Bertoti, o humor pode funcionar como uma forma de se tornar aceitável ao cérebro uma situação ou fato desagradável. “Existe um caso famoso, contado por Sigmund Freud, de um homem na Sicília que se encontrava preso. Certo dia, numa sexta-feira, ao ser informado de que sua execução havia sido marcada para a próxima segunda-feira, o condenado comentou com o diretor do presídio: ‘Acho que a próxima semana começará de uma maneira realmente simpática”, diz Bertoti.

Sobre o anedotário envolvendo políticos, Bertoti acredita que exista uma certa dose de sadismo do público, no sentido de ironizar os homens públicos e as atividades que eles desenvolvem. “Outras ‘categorias profissionais’ também estão sujeitas a isso. Já ouvi, algumas vezes, pessoas dizendo que enquanto os erros dos engenheiros ficam à mostra, para que todo mundo veja, os dos médicos a terra encobre”, afirma.

O oftalmologista lembra que políticos talentosos costumam ser mestres em reverter a seu favor piadas e comentários de teor negativo. Um dos casos mais marcantes citados por ele é o do ex-presidente Jânio Quadros, que em 1985 disputou, na condição de azarão, a Prefeitura da Capital contra Fernando Henrique Cardoso.

“A situação parecia tão tranqüila para o lado de FHC, que ele se deixou fotografar sentado na cadeira do prefeito, às vésperas da eleição”, recorda-se Bertoti. Jânio, que tinha “mania de limpeza” (o símbolo de sua campanha à Presidência, no final dos anos 50, havia sido a vassoura), ao se ver vitorioso na disputa, não perdoou: “Ele convocou a imprensa ao gabinete - lembro-me bem dessa imagem estampada nas capas dos jornais -, agachou-se diante da cadeira que FHC havia ocupado alguns dias antes e disse, com uma lata de inseticida em punho: ‘Devo esterilizar esta cadeira porque nádegas indevidas a usaram’”, conta Bertoti.