08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Seu Antônio


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As chuvas evidenciaram as goteiras do telhado e as fissuras da laje do teto da casa onde moramos, que não é uma obra antiga, tem menos de quinze anos. Menos mal, aqueles defeitos tiveram a virtude de reavivar em minha memória a figura do seu Antônio, um pedreiro cujas mãos calosas ajudaram a construir residências, salas de aula, um hospital e até uma igreja.

Seu Antônio também levantou mais de um “quarto-e-cozinha” para sem-tetos sem cobrar a mão-de-obra, às vezes, até doando o material empregado na construção. Filho de imigrantes, bem cedo ele aprendeu que o dinheiro deve ser gasto com parcimônia, assim ele não desperdiçava a argamassa do reboco e do assentamento, aproveitava as frações de tijolos e não serrava um caibro novo sem antes procurar um pedaço já descartado. Se todos os pedreiros agissem assim, imaginem quanto deixariam de ganhar as lojas de materiais e os locadores de caçambas dos dias atuais!

Por outro lado, ele não economizava ferro e cimento na composição de vigas, lajes e pés-direitos. Às vezes ele fazia até o madeiramento do telhado e a instalação elétrica.

Para dizer a verdade, seu Antônio não era lá de caprichar muito no acabamento, mas suas obras foram feitas para durar, por isso ainda estão por ai, algumas têm mais de sessenta anos. Falo delas no tempo presente, pois eu nunca soube de alguma que tivesse de ser demolida. Seu Antônio não mora mais neste mundo. Há mais de dez anos ele recebeu o irrecusável convite de habitar em uma das muitas moradas que Jesus prometeu que iria preparar para os Seus amigos, na casa de Seu Pai.

Desde então, seu corpo jaz em singelo sepulcro, sob o amplo gramado de um campo santo onde não são permitidas construções de túmulos e mausoléus. As goteiras do telhado de minha casa fizeram brotar lágrimas de saudades dos meus olhos, quando pensei: Que pena não ter sido esta casa construída pelo seu Antônio, meu querido e saudoso pai!

Oscar Camaforte - RG 3.640.192