09 de julho de 2026
Bairros

Em oito meses, morte por leishmaniose é igual a 2007

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

A leishmaniose fez mais uma vítima fatal em Bauru neste ano. Em apenas oito meses, o total de sete óbitos já é equivalente ao computado em 2007 inteiro, quando o número de mortes foi o maior em cinco anos. Desde então, 28 pessoas sucumbiram à doença. Ainda assim, há quem desqualifique e desconheça o problema, conforme pesquisa realizada pela Universidade Paulista (Unip).

Enquanto isso, o Departamento de Saúde Coletiva da Secretaria Municipal de Saúde não interrompe os anúncios de novos casos. A morte mais recente, por exemplo, foi confirmada ontem pelo órgão. Trata-se de um morador de 55 anos do Núcleo Edson Francisco (Bauru 16), já computado entre os 34 casos da doença notificados neste ano. Desde ontem, a vítima passou a integrar também as estatísticas de óbito do município.

Apesar da gravidade da situação, estudantes de escolas públicas e privadas de Bauru e seus pais continuam desinformados, desatentos e confusos em relação à leishmaniose. A informação consta em pesquisa realizada pela aluna de medicina veterinária da Unip, Noeli Meyer. Com financiamento do programa de iniciação científica da universidade, ela fez 700 entrevistas e desenvolveu o projeto orientado por Ricardo Henrique Alves da Silva.

Atualmente professor da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP), ele garante que o resultado do trabalho não surpreendeu. “A gente imaginava que o conhecimento não seria tão grande. O quadro epidemiológico em Bauru não muda na questão da leishmaniose. O problema está em como levar essa informação à população”, explica Silva, responsável por aulas de saúde pública e odontologia legal.

Técnico

De acordo com o professor, o principal problema identificado na pesquisa é que as campanhas utilizam informações técnicas, distantes da realidade das pessoas. “A gente foi para a escola conversar com as crianças. Se a gente quer mudar algum padrão de saúde, temos de pegar as mais tenras idades. Mais para frente é difícil conseguir mudar o padrão cultural”, explica o professor. Com este propósito, o foco foi trabalhar com alunos do quarto ano do ensino fundamental.

Até porque, muitos deles lidam com cães que podem estar contaminados. “Tem muita gente que, quando descobre que o animal está infectado, o abandona. Ele continua transmitindo (a doença). Não tem posse responsável por parte das pessoas”, acrescenta Silva. Também com o intuito de tentar mudar essa realidade, a professora Alessandra Prates Terrin Bastos, da Escola Estadual Antônio Ferreira de Menezes, no Jardim Petrópolis, discute o assunto com alunos da segunda série do ensino fundamental.

Ela é responsável pelo projeto “Leishmaniose na minha escola”. “Tenho acompanhado o descaso de Bauru com esta doença, que este ano matou meu cachorro. Realizo vários trabalhos com meus alunos. Toda semana fazemos algo sobre o assunto, que culmina com a confecção de algum cartaz. Toda vez que há alguma notícia, levo para a classe. Eles já escreveram uma pequena reportagem sobre o assunto”, comenta Alessandra.

A reportagem tentou contato com Meyer, mas até o fechamento dessa edição não conseguiu localizá-la.

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Pesquisa

A pesquisa realizada pela aluna de medicina veterinária da Unip, Noeli Meyer mostra que os alunos e seus pais não têm idéia que o ser humano com leishmaniose pode contribuir na disseminação da doença.

Um outro fato destacado no relatório parcial da pesquisa, ao qual a reportagem teve acesso, é que as crianças costumam brincar com seus cães justamente no final da tarde e início da noite, horário que coincide com as atividades da fêmea do mosquito palha, transmissora da doença.

O trabalho ainda mostra que informações básicas para o combate da leishmaniose não chegam à população como, por exemplo, a importância em manter o quintal limpo.