De todos os cômodos da casa, a cozinha é o lugar mais perigoso. É onde ocorre a maioria dos acidentes domésticos, como queimaduras, lesões cortantes, lacerações e intoxicações, entre outros. Por esse motivo, pais e responsáveis devem ficar sempre atentos e procurar eliminar os possíveis fatores de risco, como, por exemplo, deixar longe do alcance de crianças produtos de limpeza, líquidos inflamáveis, objetos cortantes, pontiagudos e manter os cabos das panelas voltados para dentro do fogão.
Na opinião do pediatra e diretor do setor de urgência e emergência da prefeitura, José Roberto Berber, esses cuidados reduzem o risco de acidente, mas o principal é nunca deixar criança sozinha na cozinha. “Especialmente por causa do fogão, a cozinha é o lugar mais perigoso da casa”, afirma ele.
Foi na cozinha que Wânia Húngaro Oliveira Aguillar, 44 anos, e Silvana (nome fictício), 50 anos, ambas donas de casa, sofreram seus piores acidentes. Wânia teve, inclusive, de tomar morfina para suportar a dor de uma mão queimada com óleo fervendo.
Isso foi há dois anos. Hoje, a mão está totalmente recuperada. Quase não há marcas da lesão, mas a imagem do acidente e a dor jamais sairão de sua mente. Era o almoço do primeiro dia do ano de 2006. Família reunida, mesa posta e um porco assando no fogão.
Faltava a pururuca. O couro do porco já estava separado, só esperando ser banhado pelo óleo quente, ou melhor, fervendo, para virar pururuca. Wânia foi ajudar a cunhada na preparação do prato, que já deve estar deixando muito leitor com água na boca. Mas ela não esperava um pequeno descuido da cunhada.
Enquanto Wânia espetava e virava o couro de porco com um garfo, a cunhada jogava o óleo quente por cima com uma concha. Assim foi até que a cunhada errou o tempo e virou o óleo fervendo na mão de Wânia.
A pele cozinhou na hora e os ossos da mão ficaram à vista. Apesar da dor, que ainda não era forte, Wânia sentou-se à mesa e almoçou com a família com a mão dentro de um balde de gelo. Os minutos foram passando e a dor aumentando, até que ela foi levada ao Pronto-Socorro, onde teve de receber morfina. O medicamento fez Wânia dormir 12 horas.
Depois desse acidente, ela relata vários outros ocorridos na cozinha. “Quem é dona de casa sempre está sujeita a esse tipo de acidente”, justifica. Na semana passada, ela queimou os dedos ao tentar segurar o ferro de passar roupa. Segundo ela, foi um gesto impensado, quase automático de tentar segurar algo que estava caindo.
A história de Silvana (nome fictício a pedido da entrevistada) é menos trágica, mas não menos dolorida. Ela levou um “banho” de óleo quente quando se preparava para fritar batatinhas. Ela picou as batatas e guardou-as dentro do forno até que o óleo estivesse quente. Enquanto esperava, Silvana foi até o muro da casa conversar com vizinhos. Quando lembrou das batatas, ela voltou correndo, abriu o forno, pegou as batatas picadas e quando foi se levantar esbarrou na panela e o óleo caiu em suas costas.
Os vizinhos ouviram os gritos de Silvana e entraram para socorrê-la. Ela lembra que uma vizinha pegou óleo frio e jogou em suas costas para amenizar a queimadura. A dona de casa foi levada ao Pronto-Socorro e ficou cerca de 40 dias dormindo de bruço e passando pomada. “Foi péssimo”, relembra.