10 de julho de 2026
Cultura

Os segredos de um casarão de Paraty

Karla Beraldo
| Tempo de leitura: 3 min

Portas, janelas e paredes de pedra separam o leitor dos mistérios guardados por uma especial construção de Paraty (RJ). Ao percorrer os corredores do casarão, onde Julia Mann, mãe do prêmio Nobel de Literatura Thomas Mann nasceu e passou parte da infância, o leitor de “Mestiços da Casa Velha”, mais novo livro de Lucius de Mello, ganha as chaves das fechaduras que o levam a grandes histórias. O escritor estará hoje em Bauru, no Empório Cultural, no Bauru Shopping, para uma noite de autógrafos, a partir das 18h.

A idéia do enredo de “Mestiços da Casa Velha”, quarto título do autor, nasceu das peculiaridades e magia que guarda a pequena cidade do litoral fluminense em tempos de literatura. Durante a II Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), realizada em 2004, foi que o também jornalista conheceu as duas figuras inspiradoras dessa história: Bentinho, um jovem negro professor de literatura, encontrado em um dos bares da cidade; e o velho casarão, existente até hoje, na prainha da Fazenda Boa Vista, ao lado da marina de Paraty.

“Achei muito curioso ter encontrado esse professor chamado Bentinho, nome de uma personagem tão importante da literatura brasileira, em uma festa literária. Depois, para uma reportagem sobre a vocação literária de Paraty, entrei, pela primeira vez, no casarão onde nasceu Julia Mann. Foi assim que, em meio àquela casa, completamente vazia, nasceu a idéia”, conta Mello, que trabalhava como repórter do Canal Futura, na época.

Unindo, assim, a figura de “Bentinho”, personagem do romance “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, e o casarão pertencente aos Mann, que Lucius de Mello construiu a trama do livro, no qual resgata uma série de marcas presentes na extensa obra dos dois autores. “O romance propõe um diálogo, um encontro ou até mesmo um duelo entre a obra de Machado de Assis e a de Thomas Mann. Misturei a ironia machadiana com a densidade germânica de Thomas”, explica, em entrevista ao JC.

O título do livro é uma referência às origens desses dois escritores: Machado é filho de uma portuguesa e um mulato; Thomas, de uma brasileira com um alemão. “O nome deve-se a eles. Mas, no fundo, todas as personagens do livro, como todos nós, somos mestiços”, esclarece Mello.

Uma das chaves para abrir e desvendar o mistério de “Mestiços da Casa Velha” é descobrir qual dos personagens do romance está, de fato, contando essa história. “É um romance dentro de um romace”, define o autor.

Há pelo menos cinco suspeitos que podem ter transformado a vida que passou em Paraty neste livro. Assim, ao longo da trama, o leitor é instigado a responder: Quem me escreve? “São vários os segredos a serem desvendados e esse é o principal. A idéia é que o leitor entre no livro como se estivesse passando pela varanda da casa velha e, conforme for avançando na leitura, percorra os corredores desse casarão vazio”, explica o escritor.

O livro traz o desenho de uma fechadura na lombada e uma chave na orelha, propondo uma metáfora: que ele mesmo seja encarado como a própria casa velha. “E a casa é uma metáfora da mente do leitor, porque nosso corpo é a nossa moradia. Todos nós temos as nossas paredes, janelas, cômodos vazios, isso é a alma humana”, analisa Mello.

“Essa é a grande proposta e lição do livro: uma reflexão se ficará melhor se reconstruirmos a nossa casa ou se a deixemos como está”, finaliza sobre seu primeiro romance ficcional.

Lucius de Mello é também autor do livro de contos “Um Violino para Gatos”, do romance biográfico “Eny e o Grande Bordel Brasileiro”, com o qual o escritor foi finalista do Prêmio Jabuti 2003, e o romance histórico “A Travessia da Terra Vermelha - Uma Saga dos Refugiados Judeus no Brasil”, lançado no ano passado.

• Serviço

Noite de autógrafos com o jornalista e escritor Lucius de Mello hoje, a partir das 18h, no Empório Cultural do Bauru Shopping. Mais informações pelo telefone (14) 3234-8191.