09 de julho de 2026
Cultura

Trilha sonora para o Brasil

Por Diego Molina | Com Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Desde “Lado B Lado A”, seu melhor álbum até hoje, O Rappa parece não querer facilitar o lado do ouvinte. A banda - ainda com Marcelo Yuka - aprendeu a desconstruir ritmos e construir camadas sonoras enquanto percorre letras cada vez mais politizadas, de estruturas quase esquizofrênicas e distantes das rimas fáceis. Agora, os cariocas lançam aquele que pretende ser sua nova obra-prima, “7 Vezes” (Warner Music).

E esse não é um disco fácil, como aqueles em se encontra hit depois de hit. “O Silêncio Q Precede o Esporro”, CD anterior de inéditas, de 2003, era mais digerível, desde a primeira audição, talvez pela variedade sonora e por um discurso afinado, ainda que menos pungente do que o atual. Depois, veio o CD e DVD “Acústico MTV” (2005), que rendeu uma extensa turnê a Falcão, Marcelo Lobato, Lauro Farias e Xandão.

“Nunca nos sentimos pressionados para fazer um disco por ano”, afirma o guitarrista Xandão, justificando o longo intervalo entre um CD e outro. “Nossas turnês são extensas. Ficamos, por exemplo, mais de dois anos na estrada com o repertório do ‘Acústico’”, completa o tecladista e baterista Lobato.

Somente em agosto do ano passado, os músicos diminuíram a quantidade de shows para, juntos, cuidar do repertório de “7 Vezes”. O disco é o sétimo do conjunto carioca, que completará, em novembro, o seu 16.º aniversário e que já vendeu mais de 2 milhões de discos. “Compusemos mais de 100 músicas, que classificamos entre ‘geladeira’, ‘forno’ e ‘esquisita’”, conta o vocalista, Falcão. “As ‘geladeira’ ninguém nunca vai ouvir”, brinca.

“Monstro Invisível”, primeira música de trabalho de “7 Vezes”, é bom exemplo da polirritmia a que a banda recorre, ainda que se destaque no todo do álbum pelo peso maior nas guitarras e pelo acento ragga da voz de Falcão - que, definitivamente, está mais à vontade para cantar.

Cores do Rio de Janeiro

O som d’O Rappa tem as cores do Rio de Janeiro, o amarelo e vermelho do calor e das favelas, o azul do mar, o negro, o branco, as misturas e, por conseqüência, as cores do País. Nada é bege, sem graça. Com o aprendizado do “Acústico MTV”, a banda apresenta uma teia extensa de texturas musicais, com piano de brinquedo, vibrafone, steel drums, balde d’água com garrafas, violoncelo, cravos e instrumentos indianos, para citar alguns.

O novo disco é uniforme em sua sonoridade que, segundo seu material de divulgação, é absolutamente orgânica, ou seja, cada nota que se ouve foi tocada, sem recurso de loops ou programas de edição. “Em primeiro plano, ficou a força da banda: Lobato debulhando uma bateria de poucas peças, Lauro buscando o groove perfeito de seu baixo melódico, Xandão pirando com os pedais de sua guitarra (que foi gravada em seu próprio estúdio, o Caroçu, em Curitiba) e Falcão caprichando nos raggas, como em nenhum outro disco d’O Rappa”, cita o material.

A uniformidade segue na temática do álbum: mais que social, quase um mergulho surreal na realidade carioca, entre personagens que não são heróis nem vilões, mas sobreviventes. “Acuado em situação-hiena/ Não sou carne barata/ Varejo imaginado, pedaço do atacado/ Que pena...”, diz a letra de “Hóstia”, talvez uma resposta a “A Carne”, de Yuka com Seu Jorge e Marcelo Capelleti.

“Vários Holofotes”, que fecha o álbum, é bom exemplo da ferocidade das músicas, que vão além de um simples relato cotidiano. “É um estado de sitio diário/ O muro é alto e contém a enchente/ Um limite de arame farpado/ Não acaba com a fome da gente/ O chão pinga o teto infiltrado/ É o risco de alerta ligado/ Sinto medo no espaço apertado”, canta Falcão.

A crítica é pesada também à efemeridade da música e dos artistas atuais, em “Maria”. “Minha canção é coisa séria/ Um verdadeiro comício/ Se o suíngue é meu vício/ Bato tambor desde o início/ Nosso som não tem cor/ Nosso som não tem briga/ No meu sonho vejo as favelas unidas (...) Nosso som não é barulho/ Nosso grito não é aviso/ Esquecido no entulho/ do folião sem juízo”.

Das 14 faixas, 13 são composições da banda. A única regravação é “Súplica Cearense” (de Gordurinha e Nelinho), já eternizada por Luiz Gonzaga e, agora, transformada no mais puro reggae roots do disco.

Ainda que o teor de “7 Vezes” seja político e social, que invariavelmente cai no pessimismo (“Meu santo tá cansado/ Não vou dizer que tenho saldo sobrando”, abre o disco “Meu Santo Tá Cansado”), O Rappa soube dar um tom de esperança e beleza a algumas das músicas, como a candidata a hit “Respeito Pela Mais Bela”: “E é por isso que seu povo chora/ Sem saber se era, se era a hora/ Independente de onde esteja agora/ Traga a esperança, traga ela de volta/ Não nos despedimos quando foi embora/ Saiba que foi linda, linda a sua história”.

No próximo dia 28, a banda abre, no Rio de Janeiro, a turnê de lançamento do novo álbum, que vai rodar todo o País e desembarca em São Paulo no dia 20 de setembro. “Não temos padrinhos. Por isso, temos a liberdade de exercer nossas personalidades em nossos trabalhos”, alfineta Falcão, já se dizendo ansioso para voltar à estrada, onde ele e seus companheiros se sentem realmente em casa.