11 de julho de 2026
Bairros

Pioneiros apostaram no potencial da região

Wagner Carvalho
| Tempo de leitura: 7 min

Responda rápido: se você fosse um comerciante na iminência de montar o seu negócio na cidade e tivesse que optar por um local adequado para isso, escolheria o local onde o comércio já está em ebulição há muito tempo ou apostaria em uma área composta por residências e ruas ainda sem asfalto? Certamente, a maior parte dos leitores escolheria a área central ou mesmo o Calçadão da Batista, que há cerca de 20 anos era a menina dos olhos de qualquer comerciante.

Mas não foi o que alguns pioneiros da zona sul fizeram. Por residir e trabalhar no local, além de conhecer diversos moradores, Nelson Benedito de Souza resolveu investir seu dinheiro em uma casa de carnes na avenida Nossa Senhora de Fátima. Isto ainda em 1986, quando a área sul da cidade era quase em sua totalidade residencial. Antes dele, apenas um minimercado funcionava ali.

Talvez sem saber, a casa de carnes aberta por Souza naquela época serviu como um fermento para o comércio no local. Depois dele, vieram lojas de roupas e calçados, restaurantes, supermercados e tantos outros que fazem com que quem resida na zona sul não precise sair de lá para comprar uma coisa sequer.

“Eu já trabalhava na área e quando decidi abri o comércio localizado na Nossa Senhora da Fátima. A avenida nem sequer era asfaltada por completo, parte da via ainda era de terra”, lembra Souza.

O pioneiro conta que viu cada empresa chegar na zona sul, o que permitiu a ele assistir à transformação da rua antes residencial em um corredor comercial, hoje um dos mais importantes do município. “Casas sendo transformadas em prédios comerciais, construções sendo erguidas com intuito de serem locadas para o comércio, vi muito”, lembra.

Souza é um dos mais antigos e também um dos mais novos investidores da zona sul. Recentemente, ele deu uma nova tacada apostando no potencial comercial da região e investiu no mercado de gastronomia. “Não tinha porque investir em outro local, tenho meu outro comércio aqui, meus amigos aqui e porque eu investiria em outra área enquanto todo o comércio tem seus olhos voltados para cá?”, indaga Souza.

Waldeide Ribeiro também chegou na zona sul há muito tempo. Há 12 anos, ele abriu sua loja de computadores e periféricos na quadra 1 da avenida Getúlio Vargas, quando o comércio por ali ainda estava no começo.

“Eu estava em outro local, mas ao passar por aqui vi uma casa disponível para locação e visualizei em minha cabeça a loja instalada aqui”, conta. “Na época isso aqui era só mato, o comércio de Bauru estava focado no Centro”, completa.

Ribeiro conta que sempre acreditou na valorização da área, no crescimento da zona sul e deu boas referências do local para quem procurava uma área para construir ou um prédio para locar ou adquirir na região.

Mariza Leal de Oliveira, proprietária de uma das primeiras lojas de materiais para construção a se instalar na zona sul, diz que sempre imaginou o local como sendo um centro comercial do futuro. “Meu pai era construtor e 15 anos antes de abrirmos a loja ele já trabalhava nessa área, onde construiu 33 residências. Por conta disso, ele enxergava uma tendência extraordinária de retorno para quem investisse no local”, conta Oliveira.

Assim, em 2003, a família montou a loja. Hoje, os principais clientes são pessoas físicas que edificam suas residências dentro dos condomínios fechados que se multiplicam na região a cada ano. “Para se ter uma idéia do crescimento da região sul, quando começamos tínhamos cinco funcionários. Hoje, para atender toda a demanda da área, o número de contratados mais que quadruplicou e chegamos a 21 empregos”, compara.

Novatos

A Bervely Hills de Bauru. É desta forma que a maior parte dos comerciantes que conseguiram ou que procuram um ponto comercial na zona Sul define o local. Luciana Fernandes, proprietária de uma escola de idiomas recém-inaugurada no local, conta que ela e sua irmã sempre enxergaram a zona sul como uma tendência comercial, apesar de terem iniciado seu negócio no Jardim Higienópolis. “Quer queira ou não, acabou virando um shopping aqui, todo mundo está subindo para a zona sul, é a nova ordem do mercado”, opina ela, que tem sua irmã como sócia.

Vanusa Moraes, também proprietária de uma loja recém-inaugurada na rua Araújo Leite, conta que procurava um espaço onde pudesse mostrar seus produtos e oferecesse aos seus clientes muita comodidade. “No Centro existe um tumulto e as pessoas recuam um pouco para ir até lá, talvez pela falta de estacionamento, zona azul, multas e dificuldade de locomoção. Lá, o fluxo de veículo é muito maior”, justifica.

Moraes explica que na zona sul encontrou a estrutura que precisava para montar a loja que imaginava. “Temos a estrutura planejada, um showroom que é a apresentação da loja e a área escolhida nos proporcionou oferecer aos clientes um amplo estacionamento, coisa que na região central seria difícil conseguir”, completa.

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Clientes

A ampla opção de produtos tem feito muitas pessoas optarem pela zona sul para fazer suas compras. “Compro o que preciso no comércio daqui. É claro que, como em qualquer outro lugar, tem que pesquisar para encontrar o menor preço”, diz a consumidora Neide Rodrigues.

De acordo o presidente da setorial Asa Sul, braço da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), na zona sul o comércio oferece de tudo para o cliente. “A região, inclusive, tem os seis maiores varejistas em atuação na cidade, sem falar na área de serviço”, explica

. Rafaela Barros de Lima também não abre mão de comprar na zona sul. “Compro tudo aqui, de roupas a pequenas coisas no supermercado”, conta. “Vou a outros lugares da cidade quando não encontro o que procuro aqui, o que acontece raramente”, completa.

Leila Amaral de Andrade Souza diz que vai ao Centro sim, mas que geralmente deixa para comprar tudo o que precisa no comércio existente perto de sua casa. “Não tem diferença, pelo contrário, à vezes encontro nas lojas daqui preços melhores do que no Centro”, afirma.

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‘Adoro essa movimentação’

O crescimento da zona sul, o barulho dos carros apressados e os vizinhos comerciais não assustam nem um pouco Dora Marossini. Ela conta que reside há 15 anos na avenida Nossa Senhora de Fátima e que adora a transformação que o local tem passado. “Não me importo nenhum pouco com essa mudança, pelo contrário, eu gosto dessa movimentação que tem aqui na rua”, afirma.

Quando se mudou para o local, Marossini conta que tinha diversos vizinhos e que o comércio na região em muito reduzido. Depois de todo esse tempo, a dona de casa não tem mais vizinhos - sua casa é ladeada por dois imóveis comerciais. “Acostumei com essa nova ordem, mas compro as coisas que gosto no Centro da cidade”, diz.

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Vias secundárias também atraem interesse

Quando se fala em zona sul, logo vem à mente a avenida Getúlio Vargas, com suas lojas com vitrines especialmente preparadas para chamar a atenção do cliente, bancos, supermercados, bares e lanchonetes, que concentram boa parte da noite bauruense.

Mas a expansão do comércio na zona sul fez com que o valor tanto dos imóveis quanto das locações dispara, fazendo com que os investidores voltassem seus olhos para as vias secundárias e de ligação centro-zona sul.

Vias como a Nossa Senhora de Fátima, antes residencial, em pouco mais de cinco sofreram uma transformação muito grande e atualmente abrigam mais casas comerciais do que residenciais. Outra que começa a passar pela mesma transformação é a Otávio Pinheiro Brisolla.

Nos últimos meses, a alameda tem sentido o aquecimento do mercado imobiliário, em razão da alta procura por imóveis comerciais. Em razão da oferta reduzida, proprietários de residências têm optado por se mudar para prédios e condomínios fechados para disponibilizar o imóvel, mesmo que com tipologia residencial para o comércio.

O mesmo processo acontece em vias de ligação do centro à zona sul. Ruas como a Rio Branco, Fuas de Mattos Sabino e Araújo Leite também sofrem essa transformação. Maria Helena Rigitano, arquiteta da Secretaria Municipal de Planejamento (Seplan) de Bauru, afirma que quem define a rua ou avenida que terá sua característica primária alterada não é o poder público, mas sim a demanda de mercado.