10 de julho de 2026
Articulistas

Vesgos ou mal intencionados?


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É interessante notar o que faz um processo eleitoral, no que diz respeito ao processo cultural. Seis meses antes de cada eleição municipal, pululam os “debates”, “encontros” e coisas do gênero, alimentados por pretensos criadores da área, que a tudo criticam e tentam destruir, em nome ou na verdade, em defesa de interesses individuais.

Terminada a eleição, perdidos na derrota, fazem como os ursos que hibernam durante o inverno. Desaparecem por três longos anos. E se julgam sábios, talentosos, donos de uma imensa capacidade que não é reconhecida.

Seria bom que pelo menos, acompanhassem o que ocorre na cidade em matéria de programação cultural. Pelo menos assistissem a alguma coisa, um lançamento de um livro, uma manifestação folclórica, um espetáculo teatral, e tantas outras coisas que ocorrem nos quatro cantos da cidade. Para eles só existe a máxima letal: não fui eu que fiz então não presta.

Julgam-se de esquerda, mas abominam o coletivo em favor da individualidade. Para eles o que vale é a forma e não o conteúdo. Enfim, são pobres donos de pobres cabeças. Mais vale uma ação entre amigos que uma programação que atenda a todos os segmentos da coletividade, é a forma como se conduzem.

E até se comprometem historicamente, quando sugerem incendiar o que já existe, talvez movidos por uma enorme vontade de aparecer, nem que seja na pele do Nero. Até hoje não ouvi ou li qualquer manifestação contra ou a favor, do que se pretende fazer com a Lei Rouanet, hoje em flagrante perigo de desaparecer em seus princípios iniciais. Talvez interesse a eles tal mudança, pois o que se pretende fazer é valorizar o atendimento individual de amigos, no varejo, do que mesmo uma preocupação com os rumos da cultura brasileira.

Tagarelam aos quatro cantos que a cidade não tem um piano de cauda, mas não mexem uma palha, ou aparecem para se unir ao trabalho que vem sendo realizado com auxilio da Secretaria de Estado da Cultura, para que a cidade venha a receber tal equipamento. Não basta ter talento e ser criador elogiado, se, por outro lado, as atitudes no cotidiano devastam toda essa criação e esse talento.

E mais, deixar-se levar por oportunistas de plantão, e alinhar-se aos fomentadores da discórdia porque entendem que seus interesses individuais estão sendo rechaçados, não é boa política.

O zen budismo nos ensina que cada homem pinta o seu retrato, através de suas ações diárias e suas omissões contínuas. O que vale em uma sociedade são ações de ordem coletiva que privilegiam interesses de todos os segmentos.

Fora disso, que me perdoem os elitistas, é valorizar a forma e jogar nas trevas das catacumbas o conteúdo.

O autor, Carlos Pinto, é jornalista, presidente do Icacesp e colaborador de Opinião