“Ninguém passa incólume por Shakespeare. Fazer uma de suas peças é sempre um ritual de passagem. Ele trata do humano com uma lírica e épica tão eficazes, tão fortes, que atravessam cabeça e coração.” O depoimento é de Cibele Forjaz que dirige o espetáculo ‘Sacrifício’, adaptação de Romeu e Julieta, assinada por Fernando Bonassi.
Com 12 jovens atores do Núcleo de Experimental, esse espetáculo estreou na última sexta-feira para uma temporada que vai até dezembro, no Mezanino do Centro Cultural Fiesp, em São Paulo.
“Sacrifício”? “A peça trata de uma guerra de famílias, de uma violência que é superada pelo sacrifício da vida de Romeu e Julieta”, diz Cibele Forjaz.
Por que a escolha dessa peça de Shakespeare? “Há muito tenho o desejo de trabalhar especificamente com um grupo de jovens. Ao ser convidada, imediatamente pensei em Romeu e Julieta, porque trata do primeiro amor, que está na raiz da juventude.”
Um dos pedidos de Cibele ao escritor Fernando Bonassi foi que mantivesse no original todas as palavras ditas nas cenas de amor. Mas a diretora considerou importante discutir com os atores qual seria a violência na sociedade de hoje, qual a opressão correspondente. O que pode o amor diante da força do capital?
Diante da sociedade materialista na qual que vivemos? Foram duas perguntas-chave na encenação. “Numa sociedade em que o espiritual só aparece na forma de misticismo, o amor talvez seja ainda a única força capaz de atravessar o sono drogado das instituições”, acredita Cibele. “É um sentimento revolucionário em si porque é capaz de quebrar em nós uma estrutura viciada. E não falo só de amor de novela, mas de um sentimento que excede, e pode sair do privado para o público.”