08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O centenário de Alberto de Souza


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Em 24 de agosto de 1908 nascia em Itapira Alberto de Souza, numa fazenda onde seu pai era colono, já trazendo consigo a rebeldia que norteou sua vida. Ainda criança, aos 13 anos, fugiu da casa paterna para nunca mais retornar. Em suas andanças encontrava-se em São Paulo quando estourou a Revolução Paulista, em 1924, e a ela aderiu lutando contra as forças do governo. Foi preso e pouco depois, ao fugir da prisão, foi ao encontro dos revolucionários que já haviam seguido para o sul do país, juntando-se às forças que vinham do Rio Grande do Sul, dando origem à Coluna Prestes.

Com a Coluna Alberto percorreu grande parte do país, enfrentando tropas federais, estaduais, milícias e até jagunços, com o objetivo de derrubar o governo do presidente Artur Bernardes e implantar algumas reformas no país. Foram 24 mil quilômetros de marcha, sem que a Coluna jamais tenha perdido uma batalha. Apesar da resistência, a Coluna não alcançou o seu intento e exilou-se, primeiro na Bolívia e depois na Argentina e foi no exílio que Alberto de Souza tomou conhecimento, através de alguns livros que lhe chegaram, das primeiras idéias marxistas e compreendeu que não era por acaso e nem por força do destino a existência de tanta miséria e a riqueza concentrada nas mãos de tão poucos.

De volta ao Brasil, somou à rebeldia a indignação, traços que carregou pelo resto de sua vida, e foi trabalhar como estivador em Santos, participando das lutas sindicais junto aquele que era conhecido como o “sindicato vermelho”, pela combatividade em defesa dos trabalhadores.

Nesta época Alberto de Souza adere ao Partido Comunista e é em atividade do partido, panfletando na cidade de Lins, que é preso em 1935 e enviado a São Paulo, onde foi submetido à violenta tortura. Após a libertação suas pernas já não lhe obedeciam, seqüela da violência sofrida nos porões da ditadura de Vargas e então morador na cidade de Agudos, muda-se para Bauru. Mas se suas pernas já não lhe obedeciam, sua consciência de classe e seus compromissos com o socialismo lhe impediam de abandonar a luta e mesmo com a paralisia nas pernas continuou a atuar para construir um mundo melhor.

Passou muitos dissabores, desprezo e até mesmo, em alguns momentos, a falta de condições básicas para a sobrevivência mas sem que em nenhum momento arredasse pé de suas convicções mais profundas. Morreu em dezembro de 1991 sabendo que tinha cumprido a missão que a história lhe ofereceu. Lembrar Alberto de Souza é resgatar a história de alguém que viveu com a dignidade e a coragem a flor da pele, alguém que ofereceu seu corpo e sua saúde por uma causa coletiva, como exemplo para as novas gerações. Lembrar Alberto de Souza é demonstrar que em meio a tanto individualismo e mediocridade é possível uma vida vivida com nobreza, com o brilho nos olhos do dever cumprido.

Lembrar Alberto de Souza é apontar o dedo na ferida dessa nossa sociedade hipócrita que tanto valoriza o consumo, o ter e os seres desprezíveis em seus invólucros, individualistas e sem história, travestidos de benfeitores do bem comum. Lembrar Alberto de Souza é afirmar que nada pode impedir que continuemos a sonhar, nem mesmo as traições de alguns e a desilusão provocada pela camarilha petista, bem acomodada no poder, ao lado de seus aliados capitalistas.

Lembrar Alberto de Souza é poder dizer que a solidariedade, o caráter, a indignação e a rebeldia continuam sendo atributos dos lutadores da causa socialista, apesar daqueles que mentirosamente batem no peito proclamando a sua condição de socialista e jogam na primeira lata de lixo qualquer sinal de coerência. Lembrar Alberto de Souza é demonstrar que a sua luta não foi em vão, assim como a de tantos outros e que nosso papel é percorrer esta trajetória, mantendo vivo o sonho de uma sociedade socialista. Companheiro Alberto de Souza! Presente!

Arthur Monteiro Júnior - advogado